top of page

Sem possibilidade de erro

  • T. Davison
  • 20 de mar.
  • 2 min de leitura

Há coisas que a gente percebe tarde demais, e outras que percebe cedo demais para podermos fazer alguma coisa.


Chego à casa da minha paciente todos os dias às sete horas da manhã. Uma senhora chamada Narcisa: cabelo loiro, postura impecável e uma prepotência sobressalente. Vivia na alta sociedade, coordenadora principal de todas as festas de gala onde as camadas em ascensão se matavam para conseguir um ingresso. Sabe o que isso significa? Nada. Ela está com demência em estágio inicial. A memória falha, mas o julgamento continua impecável, principalmente o dom para arranjar uma esposa para seu único filho.


Narcisa fala constantemente das moças ideais, elegíveis para seu amado tesouro. Das famílias certas, dos modos necessários. Descreve uma mulher que sabe receber visitas, que não levanta a voz, que saiba reger uma casa e uma família. Enquanto isso, passo o cronograma de suas medicações com um bolo entalado na garganta para respondê-la da forma mais sincera possível — mas me contenho.


— A senhorita pretende se casar, Martina?


— Não está nos meus planos no momento.


— Uma moça como a senhorita deveria começar a se preocupar em ser amável para se tornar

elegível para um futuro casamento.


Sorrio com a delicadeza que me cabe ali. Não lhe disse, e talvez nunca lhe diga, que não saberia me tornar amável sob medida, nem moldar meus gestos para caber nas expectativas de alguém. Há afetos que não aceitam ensaios.


O filho aparece todas as manhãs, no mesmo horário em que chego. Recebe-me com um “bom dia” curto, senta-se à mesa com o jornal aberto, um jogo de palavras cruzadas e uma xícara de chá preto. Pego-me observando-o completar as cruzadas a caneta, com a segurança de quem não parece considerar a hipótese de estar errado. Quanta arrogância.


— A palavra de dez letras, na horizontal, é disciplina. - digo


— Eu sei — responde.


Ele às vezes me agradece ao sair. Um gesto simples, um aceno breve, como quem reconhece um trabalho bem feito. Nunca mais do que isso. E é o suficiente. Precisa ser.


Há, no entanto, pequenos excessos que ninguém nota. Um segundo a mais antes de sair da sala. Um gesto que se repete sem necessidade. Uma atenção que não me cabe, mas que, ainda assim, insiste.


Narcisa continua falando das moças ideais. Eu continuo ouvindo. E, no fim, compreendo: há desejos que não precisam ser negados em voz alta, basta que nunca encontrem espaço para existir.


— T. Davison

Posts recentes

Ver tudo
Procrastinação

Eu procrastino tudo na minha vida. Desde de tomar banho, até um trabalho importante que vale a metade da minha nota. Por muito tempo, não entendia porque isso acontecia, já que sou tão ansiosa que não

 
 
 
De novo

Tem um pequeno monstro embaixo da minha cama. Tem um monstro no meu armário.  Também tem um monstro grande esperando por mim atrás da porta. E eu aposto que tem outro no final do corredor. Eu sinto mo

 
 
 
Na próxima vez, eu...

Nem ao menos o toquei. Nem ao menos o senti. O vi se esvair pelas minhas mãos como poeira, afastando-se do pouco que um dia tivemos. Ele só precisava de um detalhe. Só um maldito detalhe. Mas, no fund

 
 
 

6 comentários


Cao Chupando Manga
Cao Chupando Manga
29 de mar.

Gostei que tu fala da fragilidade da vida através da demência e apresenta as personagens como pessoas arrogantes e prepotentes que, no fim, não importa o dinheiro e o status

Curtir

Hermes
Hermes
24 de mar.

Sua narrativa foi bem construída. Sutil e cheia de tensão nas entrelinhas. Além disso, os silêncios e pequenos gestos conduzem com sensibilidade. Também gostei bastante de a palavra cruzada remeter ao título.

Curtir

Ýsis Devereaux
Ýsis Devereaux
21 de mar.

Gostei que você aprofundou o desenvolvimento de todos os personagens na mesma profundidade. Amei como as palavras cuzadas feitas a caneta retomam a ideia do título. Muito bem pensado

Curtir

aga.fullgas
21 de mar.

Arrepiado. Gosto da forma como você criou seus personagens, sem deixar que nenhum se mantivesse raso durante a narrativa.

Curtir

Joan Of Arc
Joan Of Arc
21 de mar.

Gostei da escrita, bem envolvente e a forma de contar a história prende a atenção.

Curtir

©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page