Sem título
- Manuella
- 29 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Ouvi uma vez que os pais separados, quando não mantêm uma relação saudável, fazem com que o filho deixe de acreditar que é fruto de amor.
Cresci ouvindo sobre como os meus se conheceram no ensino médio e mesmo enfrentando períodos separados, depois de tudo, ainda ficaram juntos. E eu nasci. Mas o que eu via era bem diferente das histórias sobre destino e amor adolescente. Aos 7 anos eu já sabia que meus pais não se amavam mais, transferiram esse amor pra mim e, por obrigação ou convenção social, se mantinham casados. Separados na mesma casa, na mesma vida.
Quando se separaram, já adolescente, comemorei. Mas nenhum de nós três lembrou que a separação era de duas famílias inteiras. Minha mãe, que tinha a sogra como mãe, se viu perdida, achava que todos viraram as costas para ela. Ela se sentia sozinha demais, e me dizia que eu era tudo na vida dela, mas ser tudo para alguém é um fardo pesado demais para alguém aos 15 anos. "Você é igual ao seu pai" ela gritava nas discussões, mesmo sem razão, e eu me calava. Tentava entender a carência de quem nunca teve alguém para defendê-la ou apoiá-la, de quem foi mandada para outra cidade com 6 anos para ter condições de vida melhor. Ela não entendia os sacrifícios dos pais, e eu entendia demais os dos meus.
Meu pai nunca manteve um diálogo longo comigo. Nossa relação sempre se manteve no acordo silencioso de não sabermos muito da vida do outro. Ele era o churrasqueiro nos meus aniversários, mas trabalhava no dia dos pais. Ele me levava pra escola, mas reclamava de me buscar nas festas dos meus amigos. Ele era presente, mas continuava tão distante quanto nas viagens a trabalho. Ele não entendia por quê eu tinha festa todo fim de semana, mas eu sempre compreendi o por quê ele passava semanas fora.
Sou a cria de um amor que pode até ter existido, mas se perdeu em alguma curva da vida, porque ela tem dessas. Sou a lembrança do homem que conseguia acalmar a adolescente rebelde que minha mãe era. A lembrança da mulher que fez meu pai parar de beber. Tenho 19 anos, mas carrego as lembranças, os medos, as inseguranças, as alegrias e os traumas de 50 anos dos meus pais.
Spotlessmind

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