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Uma mochila

  • Fani Pimenta
  • 27 de mar.
  • 2 min de leitura

Quando eu tinha 7 anos meus pais se divorciaram. Não sei como foi o processo de separação, eu era muito pequena, só me lembro da mudança de casas. Durante uma semana, eu e minha mãe caminhamos pelas ruas com caixas de brinquedos e de roupas até a nova casa. Eu fiquei doente uma semana depois, com muita febre e bem abatida, sabe? Depois passei a ter episódios como esse quando meu pai viajava ou quando eu ficava muito tempo longe dele, até hoje não entendi muito bem a causa. 

Passaram-se a ser duas casas, dois quartos, duas figuras e apenas uma mochila. Chega até ser engraçado essa ser a única realidade que eu realmente vivi quando criança. Eu nunca soube de verdade o que era ter um pai e uma mãe em uma mesma casa. 

Eles não se falavam, praticamente nunca. Apresentações, encontros na escola, fazer documentos, me buscar ou deixar na casa um do outro, tudo era sempre um evento, um drama, uma dificuldade. Eu quando pequena sempre ficava animada, ver as minhas figuras materna e paterna no mesmo ambiente era raro. Sempre ficava com uma angústia misturada de desejo e felicidade, nunca se sabia se uma briga começaria ou um sorriso forçado dominaria o espaço. Já me contaram histórias de como eles eram juntos, não foram necessariamente momentos bons e eu via como eles agiam quando se encontravam, então a separação sempre fez sentido na minha cabeça, pelo menos na parte racional dela.

Porém as lembranças que eu tenho são iguais a memórias de filmes, em que é manhã e o sol bate perfeitamente no quarto, criando um visual cinematográfico. Eu me lembro de momentos como esse, que eu acordava cedo e ia no quarto ver  minha mãe ainda de preguiça. Depois, podia ir direto à cozinha, que também veria meu pai comendo a mesma coisa de sempre, maçã, mamão, iogurte e cereais. 

Muitas coisas inesperadas ocorreram ao longo dos anos, e ao mesmo tempo eu fui crescendo. Ver os dois juntos no mesmo cômodo hoje ainda é surpreendente, escutar um falar do outro nunca é necessariamente agradável e saber que as brigas pelo telefone nunca foram vivenciadas é de certa forma libertador. Eu sempre lidei bem com essas situações de filho único em constante migração, nunca supostamente me importei deles serem divorciados, mas assim que pude, deixei de carregar uma mochila de um lado pro outro. 


— Estefania Pimenta

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Seu texto tem uma boa estrutura e é bem construído.

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