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Água e Biscoitos

  • lingard alberto
  • 27 de mar.
  • 2 min de leitura

No intervalo da escola o meu lanche sempre foi dois biscoitos cream cracker e um copo de água. Molhava os biscoitos na água para ficarem mais saborosos. Comia um pão seco também e era tudo o que me permitia comer no dia. Nas festas de aniversário enquanto todas as crianças riam com seus refrigerantes nas mãos eu olhava de longe com meu copo de água. Odiava quando Miguel me arrastava para rodízios. O prato dele parecia uma montanha e o meu permanecia vazio. Quando dormi na casa dele notei o desconforto que sua não sentia ao me ver não comer sua comida. Acho que fui uma criança estranha, mas será que as outras também não pensavam nas calorias de um prato de comida?


O natal era complicado, minha avó passava dias preparando a grande ceia. Nunca consegui comer sua comida tão especial. Todos gargalhavam na mesa com os olhos brilhando. Enquanto eu me sentava no sofá para não olhar aquilo. Não compreendia como conseguiam

ficar tão alegres mastigando. Minha mãe tentou de tudo, passamos várias tardes na cozinha testando receitas saudáveis. Todas ficavam péssimas, mas era divertido usar o liquidificador às vezes. A parte difícil era quando ela chorava e eu engolia a comida à força para fazê-la sorrir.


Aprendi com o tempo que não precisava ficar sem comer. Mas o meu destino após cada refeição seria o banheiro. Almoçava com meus amigos mas precisava me ausentar logo após a última garfada. Era uma piada nossa, eles achavam engraçado. O cheiro da comida deles começou a me enjoar. Beber um suco me deixava com náuseas. Se eu saísse de casa seria pior. Senti saudades de não comer. Era oficial, a comida era minha inimiga e enquanto ela estivesse lá fora eu me manteria aqui dentro.



— lingard alberto

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Achei o texto muito bem escrito e claro, profundo mas ao mesmo tempo simples. Isso me fez, como leitora, entrar na história rapidamente.

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