Cone
- gabriel gonçalves
- 28 de mar. de 2024
- 2 min de leitura
Semana que vem é meu aniversário, é o primeiro aniversário que não terei ele ao meu lado, ele não vai estar lá para acender as velas, não vai estar lá para estourar os balões comigo, nem para evitar que o Luke, nosso cachorro, pule na piscina. Uma vez Luke pulou na piscina, nadou ela de ponta a ponta e depois foi correndo diretamente para cama de meu pai, ele ficou revoltadíssimo, disse que nunca mais deixaria Luke entrar em casa, resultado disso foi que os dois dormiram abraçados no sofá da sala, ele nunca resistiu ao encantos de Luke.
Apesar de não ter ele aqui, tenho meu avô, ele cuida de mim desde que meu pai partiu, um acidente de carro levou ele, ele não viu um cone, um mísero cone laranja e branco, um objeto de cerca de 75 centímetros de altura tirou de mim quem eu mais amava, ele não viu o cone e bateu numa escavadeira, ele foi a única vítima, aquele dia era pra ele tomar sorvete comigo e me chamar de ursinho, como sempre fazíamos nas noites de sexta-feira.
Meu avô sempre tenta reproduzir o que meu pai fazia comigo, mas não é a mesma coisa, e ele sabe disso, eu sempre tento esconder o choro ou disfarçar minha tristeza quando ele faz algo que meu pai fazia e me lembra que eu nunca mais vou ver ele, e meu avô me abraça e diz que está lá por mim todas as vezes que isso acontece.
Seu Lindomar, como chamavam meu avô no bairro, tinha uma surpresa pra mim no meu aniversário, pelo menos era o que meus vizinhos me contaram, eles diziam que eu iria amar ver o que ele iria trazer pra mim, e que me faria lembrar de meu pai. No dia de meu aniversário, bem cedo, meu avô saiu de casa, nem ao menos tomou café, apenas pegou sua bicicleta e foi, não tivemos notícias dele o resto do dia, tive minha festa, meus amigos, familiares e vizinhos estavam lá, era pra ter sido tudo perfeito, porém meu avô não estava lá, e isso me fez lembrar da infeliz ausência de meu pai. Até que recebi a notícia.
Descobri o porquê de meu avô não ter aparecido, ele havia ido numa loja de conveniência num posto de gasolina, tinha uma máquina de bichinhos de pelúcia nessa loja, com vários ursinhos, ursinhos que lembram do apelido que meu pai havia me dado, meu avô foi buscar vários daqueles bichinhos de pelúcia pra mim, era essa a surpresa que ele tinha, porém o destino foi mais surpreendente, e cruel também, um homem provavelmente furioso com a vida estava esperando meu avô fora a loja, meu avô tentou usar um cone para se proteger, era o único objeto que ele tinha próximo, ironicamente um cone… O homem frustrado disparou contra ele, meu avô tenta sobreviver, mas o homem furioso não parou.
- Abebe Sant'Clair


Comentários