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FUJA

  • Joan of Arc
  • há 24 horas
  • 2 min de leitura

“Então é isso, doutora. Posso afirmar que sou especialista.”

 

“Especialista?” - Minha psicóloga exclama preocupada.

 

“Especialista. Como te expliquei, a minha maior especialidade é a autossabotagem. Sou especialista em destruir o que tá perfeito. Especialista em achar um defeito em tudo.” -Respondo, certa de que se me perguntassem o que eu faço de melhor, eu não pensaria nem um segundo antes de responder isso.

 

“Pode dar um exemplo? Essa é uma afirmação muito séria.” -Ela anota sem parar em seu caderno enquanto fala comigo, parecendo preocupada, à beira de um surto. Enquanto eu, relaxada em minha poltrona, apenas cruzo as pernas e ajeito o cabelo, deixando claro meu conforto em falar de algo tão natural pra mim.

 

“Estrago tudo doutora. Sempre. Conheço um menino perfeito que é apaixonado por mim por 6 anos. Ele é a melhor pessoa que eu já conheci. Fez mais coisas por mim que qualquer pessoa no mundo. E sempre que estou com ele, me dá ânsia em achar algo ruim, algo que estrague a nossa relação e eu possa ir embora. Quando não consigo, me dá ânsia de vômito. Já viu alguém querer ir embora de um lugar perfeito, doutora?”

 

“Talvez ele não seja quem você quer de verdade” - Ela argumenta, em uma busca incessante por tirar essa ideia de “especialista” da minha cabeça.

 

“Mas e então logo após, começo a gostar de alguém que me não me trate bem, nem sequer goste de mim, de bom ao péssimo sempre. Além disso, quando conquisto algo, como por exemplo quando passei na faculdade, procuro sempre algo que desmereça essa conquista e estrague essa felicidade. Como se vivesse em mim uma impostora, cujo seu único objetivo é abolir todo tipo de alegria e autoreconhecimento” - Continuo, certa de que estou sendo o mais sincera que posso.

 

“Por que? Por que faz tanto isso?”- Ela pergunta, fechando o caderno, disposta a focar totalmente em mim, e entender algo para ela não entendível. Talvez uma novidade em seu consultório, ou um absurdo sem tamanho, cujo nem ela, em seus anos de psicologia, poderia prever ouvir algum dia.

 

“Acho que me treinei para isso. Quando não vou em uma festa por exemplo, fico pensando em várias coisas ruins que podem ter acontecido, para parar de sofrer por ter perdido a festa. Quando vou, e a festa foi perfeita, fico procurando coisas ruins para assim não sofrer tanto pelo seu fim. Faço isso com tudo, sou treinada, como eu disse, doutora, especialista. Brigo com meus amigos quando todos me demonstram amor, acabo relações quando andam perfeitas demais. Sou uma máquina nisso. Em ver o ruim, estragar e me autossabotar, para assim não sofrer mais pra frente.” -Encerro.

 

“E o que você fará sobre isso? Falará para todos que é uma especialista do mal? Qual conselho você daria para as pessoas que estão se aproximando desse seu buraco de autossabotagem?” - Ela pergunta querendo me instigar a reflexão, mas ao mesmo tempo jogando seu caderno de lado, ciente de sua derrota.

 

“Que fuja. Fuja de mim”.


Joan Of Arc

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