A música parou, eu não consigo mais ouvir aquele nosso som
- Manuella
- 19 de set. de 2025
- 3 min de leitura
“All the lonely people; Where do they all belong?” versos de "Eleanor Rigby", The Beatles.
Eu queria fugir; eu queria te esquecer, mas parece ser impossível perder sua luz de vista; eu queria voltar no tempo, mas é impossível; eu queria te impressionar, mas sempre foi difícil entender o que eu sentia; eu queria não me arrepender, mas não sei como parar essa autotortura sem sentido; o que eu queria já tinha passado por mim, mas eu paralisei. Desde que era criança aprendi a brincar sozinho, criando histórias com brinquedos no apartamento pequeno com a área de fora de frente para um bairro perigoso, não lembro de ser incomum encontrar cachimbos pela quadra do prédio, mas me lembro de poucas vezes ir junto a um outro menino para esse local, mesmo que tenha acontecido. Poucos anos depois, me mudei do prédio, no meu último aniversário por lá, uma chuva torrencial que alagou as ruas próximas do lugar da minha festa, apenas meus pais estavam comigo nesse dia, qual a magia de um aniversário, pode ser um dia memorável, mas o verão é chuvoso e os dias são quentes demais para terem outro foco.
Por anos me convenci que eu não nasci para estar vivo, eu sempre estaria afogado no mesmo mar, esse que foi formado por minhas lamentações escondidas e pelo suor que derramei enquanto fugia da realidade, me sentia sufocado e quanto mais me debatia mais dor surgia, não era do tipo que ia embora com o tempo, ela persistia e me fez pensar que eu sabia exatamente como fazer ela partir, era simples, apenas colocar o óbolo na boca e aguardar pela chegada do caronte no meio das águas cinzas, se um dia foram azuis não importa, afinal cores já não tinham nada a oferecer.
No pior momento eu vi uma figura, passou a aparecer todos os dias, colorir aos poucos o mundo, mas não foi bom por muito tempo, eu admirei por tempo demais, demorei para aceitar como desejo por tempo demais. Enquanto eu falho, eu tento, eu caio e te encontro distante por onde eu saio, infelizmente, me doeu ter ajudado um amigo que disse gostar de você antes de eu me ouvir. Não sabia onde enfiar a cara toda vez que ele te abraçava na minha frente, eu sorria e falava com ambos, como eu poderia me distanciar das cores, como eu esqueceria seus olhos e sua risada ao meu lado, o seu coração nunca me pertenceu. Foi assustador tentar te evitar, Beatles me machucava, porque foi motivo da nossa primeira conversa, minha banda favorita e minha música favorita foram capturadas pela angústia, pelo medo de não pertencer mais à mente. Tentei fugir, me isolei, “os solitários pertencem a qual lugar no mundo” em Eleanor Rigby não há essa resposta, porém a morte está presente, sem ninguém no enterro.
Medo, uma palavra, palavras diminuem os significados, comprimem o mundo, distorcem o que sentimos e ressoam como lembrança do que devemos sentir, palavras querem ditar nossas vidas porque não sabemos definir sem usar esse código. Fotos, desenhos, vídeos e músicas que descartei, não sei como palavras poderiam representar um décimo de como foram as noites perdendo tempo, me sentindo estúpido por saber que nada que eu disse bateu diferente. Meu medo mudou, mesmo que mantenha sua essência, já não é apenas não pertencer, é fugir, cometer os mesmos erros, saber cada um deles e repetir como se fosse cíclico, é cair em uma mesma conhecida espiral.
Rick Deckard

Gostei da crônica, senti a sua angústia daqui! Só poderia melhorar um pouco as estruturas do texto, para que as ideias fiquem melhor organizadas.