A sombra que não chora
- Manuella
- 12 de set. de 2025
- 1 min de leitura
Existe em mim uma sombra que prefere o silêncio às lágrimas. Não é ausência de sentimento, mas uma maneira diferente de atravessar as dores. Quando o mundo se veste de luto, eu me encolho por dentro, e por fora pareço quase imune. Nunca sou a pessoa que soluça alto, que se desfaz no colo dos outros. Minha sombra anda comigo nesses instantes: ela sussurra que minha contenção pode soar como frieza, mesmo quando não é.
Nos velórios, percebo os olhares que esperam um gesto meu, um choro, qualquer sinal que traduza a dor em cena visível. Mas não acontece. Minha forma de sofrer é silenciosa, feita de pensamentos que não se mostram. Fico ao lado, ofereço presença, mas raramente ofereço espetáculo. E, ainda assim, a sensação é de estar sempre em falta, como se o mundo exigisse lágrimas como senha para validar a dor.
Não sou efusiva nas alegrias nem nas tristezas. Vivo no meio-termo, no espaço onde as emoções não transbordam, mas também não deixam de existir. Minha sombra é essa distância, esse receio de que confundam meu jeito contido com indiferença. Convivo com ela todos os dias, e aprendi a aceita-la como parte de mim. Afinal, cada um chora de um jeito, alguns por dentro.
Emily Dias

Achei que o título combinou bem com a crônica! Parabéns !
Ótimo texto
achei sensível e tocante parabens pela escrita