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Autocondenação

  • Manuella
  • 12 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Sombra, aquela que te acompanha para todo lugar que tenha luz. Eu conheço a minha. Ela não está perdida nos diversos traços da minha personalidade, mas, sim, muito bem refletida e consciente sobre o lugar que ocupa em mim - ou eu acho que está, porque a minha sombra sempre me condena. 

Desconto a raiva e os problemas nas pessoas que eu mais amo. No momento em que eu me irrito com alguma situação, essa penumbra vem chegando de mansinho e, de repente, ela explode e faz uma tempestade em casa, minha fonte de brilho mais iluminada. A razão disso eu sei bem: quem me ama de verdade nunca vai se afastar de mim por causa de uma reação turbulenta e totalmente desnecessária. 

Uma vez, conversei sobre isso com o meu pai. Falei para ele que, quando sentia muita raiva de alguém na escola, eu simplesmente me afastava e ficava quieta no meu canto, pois se explodisse como fazia em casa, ninguém gostaria de ficar perto de mim. 

Sinto-me extremamente triste e culpada por saber que deixo as pessoas da minha família desapontadas comigo, pelo fato de eu colocar tudo para fora dentro do meu lar. Vejo a casa como um lugar das minhas diversas sombras - nem eu e nem ninguém possui apenas uma -  desacompanharem meu corpo, e de serem livres por um instante. 

Confesso que escrevo essas palavras na intenção de quase me inocentar por algo que sei que é errado e continuo fazendo. Minha sombra sabe que existe, mas, só depois que o caos está instaurado, percebo o quanto ainda preciso trabalhar isso em mim. Devo agir igual acontecia no colégio: ir para o canto, meu quarto, e conviver sozinha com essa fúria que só deve machucar a mim mesma. 

Enquanto pensava nesse lado que omito para outros, lembrei de um trecho do poema “Se eu fosse eu”, da Clarice Lispector, que define exatamente o que penso em relação a essa sombra que escondo: “Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.”


Magnólia Morsch


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6 comentários


Aurora Vienna
Aurora Vienna
02 de dez. de 2025

Impactante e extremamente bem escrito! Consigo ver o seu conflito interior ao falar da sua sombra

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Cece
Cece
02 de dez. de 2025

Achei bastante reflexivo e impactante ! Parabéns !

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Carmen Santiago
Carmen Santiago
19 de set. de 2025

Adorei o texto! Consigo ver sua dualidade sobre o assunto

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Cleber
Cleber
16 de set. de 2025

Texto ótimo!

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Arabella
Arabella
16 de set. de 2025

Encaixou perfeitamente a citação com o texto

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