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A tolice inocente de querer cuidar demais

  • Manuella
  • 20 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

É impossível agradar a todo mundo. É impossível deixar todo mundo feliz. A satisfação nunca é plena; nós sempre queremos algo, conseguimos, e ainda queremos algo ou vamos querer futuramente. Sempre queremos mais e o que temos nunca é suficiente. Assim, se não é possível deixar todos felizes, porque o meu coração sempre precisa tanto da alegria dos outros para ser feliz também?

Deve ser por essa minha tolice: estou sempre em desespero pelo amor. Há essa vontade que fica guardada no mais fundo tremor constante do meu corpo, no pigarreio mais contido da minha garganta, no meu mais sincero riso abafado. É tão bom fazer alguém rir, alguém sorrir, que gostaria de poder capturar esses momentos na minha memória para sempre. As fotos e os vídeos não me são suficientes; coloque essa risada no volume máximo dentro da minha cabeça para tocar no próximo sonho, por favor. A liberação de endorfinas seria implacável.

Também pode ser essa minha inocência: quero que todos que amo estejam felizes. Para isso, sujeitaria até mesmo a minha própria felicidade. Não quero ferir quem eu amo porque temo que eles vão me deixar, assim como todos sempre fizeram. Não posso correr esse risco. Prefiro que você decida por mim, porque se isso vai te fazer bem, me fará também. Na teoria.

Talvez seja essa cuidadoria minha: Essa ideia de estar do lado para o que der e vier até a morte. De querer cuidar do outro. De o fazer feliz. Estaremos juntos! Prometo ser leal a você, te ajudar, te amar. Mas essa promessa não se equivale a mim. Até penso que sim - até penso que, se eu ouvir, se eu ajudar, se eu aparecer, estarei sendo uma boa pessoa. Uma boa companhia. Também vou estar me fazendo feliz. Mas isso é mentira.

Eu sei que isso não é amor. Eu sei que preciso disso, desse amor constante dos outros, da alegria deles direcionada para mim. Mas o que faço não é amor. Porque estou mentindo. Não estou sendo sincera sobre os meus sentimentos e nem sobre o dos outros. Falo o que eles querem ouvir, faço o que eles pedem. Ninguém sente isso de verdade. Não dá para se limitar a sentar lá, colocar a vida de todos na frente da minha e pensar que o que importa é o amor. Mas é aí que mora a verdadeira questão: o maior problema de tanto querer o amor dos outros é conseguir compreender que esse desejo é insaciável. Sou tão tola por querer te fazer sorrir para conseguir sorrir também? Se sou dependente da sua felicidade para obter a minha, como vou encontrar a minha felicidade? Isso é tudo que eu sou? Tudo que consigo ser?


Lois Lane

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1 comentário


Cece
Cece
04 de nov. de 2025

Me identifiquei bastante com o texto! Ficou ótimo!

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