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Sem título

  • Manuella
  • 2 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura

Me sento perto a escrivaninha, a luz da manhã entrando pela janela ,mas a penumbra que sinto é interna. Há um palco em minha alma onde duas figuras imponentes disputam o foco, e a plateia sou eu.

De um lado, se ergue o Governador, uma silhueta talhada em mármore frio, vestida com a autoridade de um decreto. Ele carrega o cetro da Ordem e o peso da Responsabilidade. Sua voz é o eco metálico da Necessidade, e seus olhos sempre alertas, só enxergam a linha reta do dever. Ele sussurra em mim: "Estrutura. Planejamento. Poder. Não há tempo para a ternura; há apenas tempo para a construção do Império." É ele quem traça as fronteiras, quem ergue os muros para que o caos não invada o jardim da razão. Sua beleza é a da matemática: fria, impecável, inevitável. Ele é a espinha dorsal que me permite ficar de pé, mas também a armadura que me impede de curvar  em um abraço.

Do outro, paira o Cuidador, uma figura calma tecida com fios de seda e compaixão. Seu aroma é de camomila e terra molhada; sua luz, o calor acolhedor de um lar. Ele não carrega cetro, mas sim a bacia e a toalha, pronto para lavar as feridas do mundo ,e as minhas. Feridas . Sua voz é gentil , o murmúrio que diz: "Gentileza. Nutrição. Pertencimento. O valor de uma vida não está em sua glória, mas em sua ternura." É ele quem me lembra que a força verdadeira reside em ser vulnerável, em oferecer o peito nu ao risco da dor em nome do amor. Ele é a semente que me obriga a chorar, a sentir, a romper o casulo da autossuficiência.

O conflito é uma sinfonia agonizante . O Governador grita: "Avance! Conquiste!" O Cuidador implora: "Pare! Acolha!" Me sinto dilacerada , um mapa rabiscado onde estradas e rios correm para direções opostas. Se sigo o Governador, torno-me eficiente e duro, capaz de vencer a batalha, mas perco a capacidade de celebrar a paz. Se atendo apenas ao Cuidador, me torno  suave demais, um mar de empatia que se afoga na dor do outro, perdendo a firmeza para traçar meu próprio rumo.

No auge da contenda, quando minhas pernas tremem e a cabeça pulsa com a indecisão, fecho os olhos. Deixo o barulho acalmar, e o silêncio da pausa traz uma revelação.

O Governador não está ali para oprimir a vida, mas para protegê-la. Ele não constrói muros para afastar, mas sim para criar um espaço seguro onde o Cuidador possa atuar sem ser esmagado. O Cuidador, por sua vez, não é a anulação da força, mas sim a razão pela qual a força existe. Ele injeta calor humano no projeto do Governador, garantindo que a Ordem seja justa e que o Poder sirva à vida, e não o contrário, no final os dois podem podem viver em harmonia dentro de mim fazendo uma sonata perfeita.


Colasante  


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1 comentário


Cece
Cece
04 de nov. de 2025

A reflexão sobre o conflito interno entre a razão e a emoção foi retratada de maneira bastante sensível! Adorei!

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