Aquele em que perdemos um amigo
- gabriel gonçalves
- 28 de mar. de 2024
- 2 min de leitura
Tenho estado muito desgostosa com a vida. Tenho sentido falta da minha infância, mas
principalmente da minha adolescência. Fazem anos, poucos, talvez, mas que parecem uma
eternidade, que não sinto a sensação ou sequer o sabor ou o cheiro da magia da juventude.
Sinto que me despeço disso aos poucos enquanto me atolo em afazeres e responsabilidades
que transformam o mundo em real.
Rio da ironia desse fato, já que passei a maior parte do que os mais velhos chamam de
“mocidade” presa em um mundo de livros e seriados. Tive como principal fonte de diversão e
aprendizado seis fictícios melhores amigos que viviam vidas caóticas na cidade de Nova
York. Nunca pude evitar de sonhar alto, sempre sonhei que aquela fosse a minha realidade,
mas não era a minha e nem a deles.
No final, Rachel, Ross, Monica, Phoebe, Joey e Chandler eram apenas personagens aos quais
Jennifer, David, Courtney, Lisa, Matt e Matthew cediam os seus corpos por algumas horas do
dia por dez longos anos. Eles também tinham problemas, mágoas, preocupações e estavam
presos ao mundo real, assim como eu.
Na manhã desta terça-feira, a manchete “Atores de friends se despedem de Matthew Perry”
cortou um dos meus últimos laços com a juventude e a realidade me deu um forte tapa no
rosto.
Por um instante, eu fechei os olhos e, por um momento, eu me vi com 14 anos de novo. Me vi
chegando da escola, tirando os sapatos rapidamente e correndo pra frente da televisão. Em
algum estúdio de Hollywood, muitos anos antes, alguém gritava “ação”, uma claquete batia e
Jennifer Aniston entrava em cena, em um vestido de noiva, dando a vida a Rachel Green. No
cenário do Central Perk, os outros cinco integrantes aguardavam para me fazer sorrir.
Acho que escrevi o roteiro da minha vida acreditando fielmente que fiz parte daquela
amizade. Éramos sete amigos compartilhando diariamente ao menos 20 minutos do nosso dia.
Por isso, quando li a primeira linha de despedida dos atores, em uma rede social qualquer,
automaticamente tive saudade do passado. Perder Matthew foi como perder um amigo de
longa data, foi como ter a realidade batendo na minha porta pra dizer que nada é eterno e ver
a vida me gritando, em sinal de aviso, pra me informar que ela está correndo.
Não sou mais a menina de 14 anos que podia devanear sobre histórias em Nova York, assim
como Matthew não era o Chandler. Tenho receio de não conseguir ser tudo o que quero e de
não viver tudo que prometi pra mim mesma há muito tempo atrás. Acho que tenho medo da
realidade e de nada incrível acontecer comigo. Acho que tenho medo, mas ao mesmo tempo
esperança, de adquirir gosto pela realidade. Me escoro nas palavras de Matthew em sua
autobiografia: “Quem eu vou me tornar? Seja lá quem for, vou seguir em frente como o
homem que finalmente tomou gosto pela vida.”
Enquanto isso, Nova York amanhece silenciosa pela primeira vez na história. A calçada do
famoso prédio de esquina em Manhattan nunca esteve tão florida, mas também nunca esteve
tão triste. Em algum lugar, a porta roxa se fecha pela última vez e as letras dos créditos
sobem, pois esse foi o episódio em que dizemos adeus.
- Rory Gilmore


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