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As correntezas da solidão

  • Manuella
  • 19 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Quando se é criança, nossos pais são exatamente isso, e só isso: nossos pais. são rochas sólidas, incólumes para servirem de abrigo e consolo e, ao mesmo tempo, rígidas para que não nos falte obediência. Com o passar do tempo, vamos entendendo que para além de nossos pais. Eles são filhos de alguém, irmãos de alguém, eles têm amigos assim como nós. E, acima de tudo, eles tem sentimentos como nós.

        Minha mãe sempre foi sinônimo de alegria. Cedo entendi que para além de minha mãe, ela era uma pessoa alegre. Era a tia que brincava com todas as crianças nas festas de família, que conseguia acalmar os bebês e fazê-los parar de chorar, que estava sempre com um sorriso que iluminava mais que todas as luzinhas no Natal. Comecei a perceber isso quando ela me contava que sua festa favorita do ano era o carnaval, e pulava nos blocos até amanhecer. Ela contava como era fã e se identificava com a Ivete Sangalo. Me contava dos seus sonhos de infância de dançar e ser paquita da Xuxa. Aí está outra coisa que descobrimos sobre nossos pais: eles têm sonhos. Ou melhor, eles tinham sonhos. Sonhos que não tem, e isso talvez seja o mais chocante aos 12 anos, relação alguma com você.

Como entender que você conhece seus pais a sua vida toda, mas que eles sabem da sua existência por apenas um terço da vida deles? Que antes de você, todos os sentimentos que hoje embrulham seu estômago e fazem sua cabeça girar já conheciam e eram tão íntimos de pessoas que você achou que nem os conheciam? 

        Para além da alegria da minha mãe, existia um mundo de tristezas, banhado de rios e mais rios de lágrimas choradas pela mãe distante, pela melhor amiga que a traiu na adolescência , pelos namorados que amou incansavelmente e que a deixaram por serem pequenos demais para tanto sentimento, pelo pai que morreu. Rios que já tinham correntezas fortes e perigosas antes mesmo da minha presença ser cogitada. 

        Por algum tempo me iludi, com palavras que ela mesmo me dizia, talvez já mentindo pra si mesma: que eu fui capaz de salvá-la. Que fui capaz de acalmar as correntezas que arrastavam cidades de afeto e muros de alegrias. Quando percebi que era uma adolescente impotente comparado à correnteza dessas águas em rios proporcionais ao Amazonas que desaguavam em mares de solidão e desamparo, veio o medo. O medo de um viajante recém chegado em uma terra mais antiga que ele, e desconhecida até pela habitante local. 

       O medo de perceber que sua mãe também está vivendo pela primeira vez, e que os rios de tristeza só aumentarão. Ainda mais com a partida do bem mais precioso para a habitante dessa antiga terra alagada. Eu estava partindo, para expandir meus territórios, descobrir novas terras e fazer correr meus próprios rios. Minha mãe criou uma filha pro mundo, mas não se preparou para quando eu realmente estivesse lá. E, longe do meu alcance, tenho medo que ela se deixe levar pela correnteza. Tenho medo de que ela escolha parar de nadar.


Spotlessmind

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