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Bolero de Satã

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 6 de nov. de 2023
  • 2 min de leitura

Atualizado: 17 de nov. de 2023

Os ventos que banham a Baía também molham as sementes secas de péssimas lembranças que carrego comigo, a umidade no ar que é a mesma que existia no turbulento vento que saía de sua boca quando profanava tantas más palavras para a face da pessoa que um dia escolheu amar, a violência dos rochedos e suas pontiaguidas pedras cheias de cracas e outras coisas representam bem como me sinto por dentro nesse momento, não há muito do que lamentar pois fui eu mesma que escolhi viver e te entregar meu saveiro a alguém que sequer sabe conduzir um bote, onde as ondas suaves embalavam nossos meros momentos, a brisa salgada dava o tempero que precisavamos para sermos felizes, onde olhar o céu azul e adimirar a descida do carro de Apolo até o chegar das estrelas com você era um evento que eu nunca negava passar, ao decorrer do tempo seus atos me feriam, me abandonava em pleno mar aberto enquanto o furacão que se formava dentro do seu formoso corpo me faziam afundar cada dia mais, nunca fiz nada que justificasse meu naufrágio, mas defronte ao local onde os destroços repousam percebo que não foi por minha culpa, fui eu que dancava bolero com satã aos acordes do homônimo de Elis e Cauby no salão vazio desse transatlântico que tinha como destino o fundo do mesmo oceano que lhe dava o nome, não foi por minha culpa trazer as ondas à altura dos meus olhos, não foi por minha culpa me deixar afundar. Agora entendo que um mar muito calmo não forma bom marinheiro e, pelo visto essa nunca foi sua vertente de profissão, porém me deixou marcas profundas a tal qual mais não posso olhar para o mar que sinto que uma parte de mim grita, suplica, implora para ser resgatada dos despojos do que um dia foi um belissimo saveiro, mas não posso fazer nada ao respeito a não ser ver ela, levada pela maré, para algum lugar onde se sinta confortavél. Sinto sua falta, mas não vou esquecer pelo que me fez passar, pelo que me fez fazer e principalmente pelo que me fez perder.



- Nair S.

6 comentários


Coraline Blues
Coraline Blues
01 de dez. de 2023

nair, eu adoro a sua sensibilidade na escrita! por favor nunca perca isso. a forma como você traduz a sua experiência em palavras é lindo!

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Carrie Grant
Carrie Grant
12 de nov. de 2023

adorei seu texto, muito tocante e sentimental.

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Motoserra
Motoserra
11 de nov. de 2023

achei tudo muito descritivo, realmente me senti indo pra viagem que as palavras transportam

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Rory Gilmore
07 de nov. de 2023

Nair, amei sua crônica. Há uma parte poética extasiante no meio de excelentes analogias. Me puxou para o seu texto ao ponto de me fazer sentir parte das suas lembrança.

Apenas uma dica construtiva: senti falta de alguns “pontos finais” durante a leitura, acredito que poderia substituir algumas vírgulas por eles.

Espero te ler de novo essa semana :)

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Aurora Boreal
Aurora Boreal
07 de nov. de 2023

Nair, acho o ato de escrever muito dificil de ser feito, então, primeiramente, parabéns. Aliás, fazer uma analogia da paisagem com uma pessoa que já foi amada foi brilhante, eu consegui sentir um pouco o que você passou.

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