top of page

"Circo" à Meia-Noite

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 12 de out. de 2023
  • 3 min de leitura

Atualizado: 17 de nov. de 2023

Julieta não deveria ter saído.


O soar das risadas era histérico. O cheiro de álcool invadia a pista de dança. Todas as pessoas, desde as mais desavergonhadas até as mais tímidas, perderam o seu bom senso.


Suas amigas a convenceram a participar daquela festa. Coisa que ela jamais faria se não estivesse se sentindo tão entediada ultimamente.


De repente, o som para de tocar e o animador da festa se apresenta. Ele veste um paletó colorido, gravata borboleta e uma cartola de mágico. Seu rosto está pintado de palhaço com a tinta mais barata do mercado e sua expressão é divertida. Ele se aproxima dela em passos que pareciam durar uma eternidade, mas ela já estava bêbada demais para discernir qualquer coisa que estivesse acontecendo ao seu redor.


Suas amigas haviam se misturado entre a multidão para namorar e não perceberam o risco que seria deixá-la sozinha por aí no meio dessa farra. Afinal, elas não esperavam que as coisas fossem realmente sair do controle.


Julieta era a mais tímida dentre suas amigas. Exceto, é claro, quando tomava uma garrafa de Vodka. Aí podia-se imaginar que Julieta se perdia.


O animador propôs um desafio para ela. Se ela conseguisse pegar sua cartola, ela ganharia um prêmio de trezentos reais. É claro que ela não negaria esse desafio. Só havia um problema: Julieta era literalmente um "cotoco" de gente, uma miniatura de pessoa, praticamente um "minion" e, com apenas 1.45 de altura, as chances de conseguir os trezentos reais diminuem tanto quanto a altura dela.


Mas a jovem nunca foi mulher de desistir fácil. Ela sempre foi uma garota insistente e, por isso, não rejeitou o desafio. O animador, então, abriu um sorriso atrevido, tomou a cartola em mãos e saiu correndo entre a multidão. Julieta foi atrás, como louca, já havia esbarrado em tudo que via pela frente. O animador se divertia e as pessoas da festa riam descaradamente do descontrole motor da jovem.


Ela estava tonta. Corria, mas nem notava direito para onde ia. Seus sentidos estavam comprometidos pela bebida forte. No entanto, os que conheciam Julieta sabiam que ela não se renderia.


O penteado dela já estava um caos. Sua maquiagem, certamente, estava borrada e ela temia que tivesse perdido um par de brincos nessa brincadeirinha com o cara de palhaço. Se ela pudesse, mandaria ele direto para Plutão, seja lá quanto tempo durasse.


Julieta estava quase lá. Ela estava bem perto dele. Os olhos dela o fuzilavam em fúria e um sorriso convencido surgiu nos lábios dela. Acontece que o cara de palhaço era mais inteligente do que ela esperava e ele a surpreendeu jogando a cartola para longe no local onde foram colocadas as mesas.


Descontrolada, ela correu entre as mesas para agarrar a cartola, mas maldita seja a lei da gravidade no momento em que seu salto quebrou no meio da sua corrida e ela caiu toda suada com aquele mini vestido sobre o corpo de um vovô que deveria ter uns sessenta e poucos anos que ela nem sequer viu na vida, encostando a face exatamente nas calças do velhote.


Não importava o quão embriagada ela estivesse, nada apagaria de sua memória o sentimento de vergonha que ela sentia no momento em que os olhos do vovô a encaravam chocados e o olhar de diversão daqueles idiotas festeiros miravam o seu rosto vermelho de constrangimento. Nada apagaria de suas lembranças o som das risadas e a raiva acumulada que ela queria liberar na cara daquele maldito palhaço.


Ao se levantar, ela encara o animador que a vislumbra com um sorriso provocador.


- Parece que você perdeu, raio de sol! - Ele pega a cartola em cima da mesa e a cumprimenta colocando o seu chapéu e o retirando em seguida. - Quem sabe numa próxima vez, não é? - Ele explana e se junta à multidão.


- Aplausos para nossa jogadora. - Ele grita com entusiasmo e olha para ela novamente. - Ela é realmente... divertida! - Ela solta um grunhido de deboche em resposta a ele.


- Julieta! Julieta! - Uma de suas amigas grita seu nome. - O que aconteceu, mulher? Estávamos te procurando a noite toda.


- Nada, meninas! Só algo que eu certamente nunca esquecerei na minha vida.


- Nunca mais, é?! Que é? Beijou alguém e não quer nos contar? - Ela a provocou.


- Quem dera, meninas! Quem dera! - Ela disse, ainda não acreditando em tudo que aconteceu e que, no fim, venceu, pois ao pôr as mãos no bolso do seu vestidinho vermelho, ali estavam os trezentos reais que ele a prometeu.


Palhaço atrevido! Parece que a vergonha não é tão ruim, afinal.



- Daphyinne

2 comentários


Anthony Serra
Anthony Serra
13 de out. de 2023

por trezentos reais até eu enfrentava essa vergonha hahaha


Curtir
Daphyinne
Daphyinne
14 de out. de 2023
Respondendo a

As pessoas fazem coisas meio loucas por dinheiro. Não posso negar, acho que enfrentaria esse constrangimento 🤣

Curtir

©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page