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Com provável possibilidade de erro

  • T. Davison
  • 27 de mar.
  • 2 min de leitura

Há coisas que a gente sempre percebe, e continuamos percebendo, mesmo quando estão guardadas no fundo do nosso inconsciente.


Chego à casa da minha paciente atrasada, às sete horas e quarenta da manhã. Está completamente silencioso e vazio. Posiciono minha bolsa na cadeira de madeira escura que ornamenta o ambiente da cozinha com uma estética interiorana. É o primeiro barulho do ambiente. Retiro da bolsa as minhas inúmeras anotações acerca da extensa pesquisa sobre demência, os prontuários e os medicamentos de Narcisa. O armário ao lado do balcão da pia dispõe de um local reservado para os medicamentos diários, organizo-os por ordem de uso e validade conforme vão sendo utilizados no dia a dia.


Resolvo utilizar a mesa da cozinha para separar minhas pastas catalogadas quando, de repente, algo me chama atenção, uma xícara de chá, com uma porcelana preta muito básica, em cima de um pires branco com bordas pratas. Ao lado, se localizava um bilhete com uma caligrafia completamente deplorável, mas recordei-me imediatamente a quem pertencia aquela letra, que se assemelhava a um rabisco infantil.


"Traga mais mel"


Traga mais mel? Tremendo, provo o conteúdo esverdeado da xícara, base de chá verde com infusão de jasmim e duas colheres de mel. Como ele sabia exatamente o jeito que eu tomava chá? Ele andou me analisando? Aqueles olhos cinzas, que sempre pareciam tempestuosos, prestaram atenção em algo que não fosse o jornal casual, palavras cruzadas, e sair pontualmente às sete horas e trinta minutos para o trabalho no cartório? Sinto-me nebulosa como seus olhos. Era estranho, quase desconfortável, existir sob um olhar que não deveria, mas enfim, me via.


Lavo a simples xícara de chá e começo os preparativos do café da manhã de Narcisa o mais rápido possível para compensar o atraso. Mingau de aveia preparado com o leite de castanhas que compro de um pequeno agricultor perto de onde moro, frutas vermelhas, maçãs e um fio de mel para adoçar. Minha paciente chega à cozinha coberta em um robe verde escuro com fios dourados, cabelos loiros perfeitamente alinhados em um coque baixo e sua postura intimidante. O olhar dela permanece em mim por tempo demais, me analisando. Acho suspeito, mas me contenho.


— Bom dia Sra. Narcisa, dormiu bem? — pergunto para tentar diminuir o ar austero que emana.


— A senhorita me parece… diferente hoje. — responde veementemente, ignorando completamente a minha pergunta anterior.


Diferente? Prefiro me abster de qualquer resposta. Há coisas que, uma vez percebidas, tornam-se impossíveis de esconder, não dos outros, mas de si mesma. Talvez ela apenas estranhasse o leve desalinho em meus gestos, ou a demora entre um movimento e outro, ou o quanto me sinto exposta sob seu olhar inquisitivo, como se visse meus sentimentos e confusões através de meu corpo.


— O café da manhã está pronto. — respondo secamente, contendo o tremor em minha voz, alterada pelo ato secreto de cuidado que seu filho realizou.


Talvez fosse isso, o incômodo silencioso de ter sido, ainda que por um instante, verdadeiramente notada.


T. Davison

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