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Corda bamba

  • Manuella
  • 19 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

O meu maior desafio é o meu maior medo.

Eu preciso atravessar uma corda bamba. Eu estou no lado seguro e confortável - aquele

que não é possível enxergar ferimentos ou dores perceptíveis a olho nu - mas o outro lado

parece bem melhor. Ele sempre parece bem melhor. Não consigo ver muito dele daqui,

mas todos que um dia vão até ele nunca mais voltam. A vista mais bonita do meu lado é

enxergar o outro. Ele parece exatamente o que eu quero, o que eu sempre quis. O lugar

que pode curar até as minhas cicatrizes mais profundas. Mas, para ir até ele, preciso

atravessar uma corda bamba.

Inúmeras pessoas saem do lado que estou e vão pro que desejo. Elas se arriscam; algumas

colocam os dois pés na corda, e outras, um pé de cada vez; algumas correm como se

houvesse um temporizador chegando ao fim, e outras, andam tão devagar que é possível

cochilar. Algumas se machucam. Algumas vão animadas. Para algumas, é tão fácil que vão

deslizando com os olhos fechados. Algumas até caem - no beco enevoado que é impossível

determinar o que acontece quando se caí lá - mas voltam e tentam de novo. Várias e várias

vezes, até conseguirem. Independente do quanto demore, elas sempre chegam.

Eu assisto elas conseguirem, enquanto estou com o pé levantado para começar o trajeto,

mas não consigo me mover. O meu corpo não responde, completamente paralisado,

somente ouve os questionamentos que a minha mente propõe.

O meu lado é tão simples de lidar, tão seguro, tão protegido. Porque quero ir para o outro?

O que mais pode ter lá que não tem aqui?

E se eu usar a estratégia errada? Talvez a corda esteja trêmula ou equilibrada até demais.

Não tenho como saber se eu não tentar. Mas e se eu tentar e der errado?

E se eu não for feita para esse tipo de missão? Talvez a corda só aguente pessoas mais

atléticas, mais inteligentes, mais esforçadas. Até mais bonitas. Porque devo me colocar em

risco?

E se eu correr demais ou for muito devagar? Como eu encontro o ritmo certo? A corda que

me diz ou eu que digo a corda? Eu preciso ter controle sobre ela ou ela precisa ter controle

sobre mim?

E se eu me machucar? E se eu torcer um tornozelo, ou ter um tique esquisito no olho, ou as

minhas mãos começaram a tremer. E se eu travar no meio da corda?

E se eu cair? O que vai me acontecer? E se eu não conseguir mais voltar ao meu lado de

antes? E se eu me arriscar tanto para ir a um que no final não consiga chegar a nenhum

dos dois?

E, se eu cair, o que tem lá? Eu não consigo enxergar daqui, e isso me assusta. É perigoso?

É assustador?

E se as pessoas que também estão passando pela corda me virem caindo e tentando de

novo? O que elas vão pensar de mim?

Será que, ao chegar lá, serei mesmo feliz? Será que isso tudo é uma ilusão?

A verdade é que não sou feliz nem aqui no meu lado. Eu realmente prefiro ficar aqui do que

me arriscar por algo melhor?

Mas e se eu tomar o primeiro passo? E se eu der um salto de fé, um tiro no escuro, e me

jogar no desconhecido?

E se?

Um dos meus diálogos favoritos na ficção diz: “Sem a autocrítica, eu estaria perdida.” “Ou

livre.”

E esse é o meu maior medo. Tenho medo de que o desafio que tanto me assombra, que me

paralisa, que me causa tremores, que me causa pavor, na verdade, nem sequer exista. No

final, ele foi somente um fragmento protetor inventado por mim mesma.

Tenho medo que a corda bamba seja fácil de passar, que se eu cair, seja realmente só

tentar de novo, que ninguém nem esteja me olhando, e que o destino final me faça não

querer voltar.

Tenho medo de conhecer o desconhecido e ele ser ainda melhor que o conhecido.

Tenho medo de que eu esteja me protegendo somente de mim.

Tenho medo. É por isso que o meu pé não se move em direção a corda, os meus olhos

somente param para assistir o vislumbre dos outros passando por mim e vivendo o que eu

sempre sonhei viver.


Lois Lane

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