top of page

Esqueci de nomear.

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 13 de out. de 2023
  • 2 min de leitura

Atualizado: 17 de nov. de 2023

Hoje, saí às pressas de casa. No meio do caminho me perguntei se tinha desligado

o ferro de passar roupas. Não me lembrei. E as portas? Será que fechei? Meu

Deus, as roupas. Eu tirei do varal? Hoje deve chover. Não me lembro de nada,

esqueço de tudo. Lapso, olvidamento ou, melhor, chuva de esquecimento.

Desde pequena, sou esquecida. Esquecia a mochila em casa ao ir para a escola,

esquecia de colocar meu nome nas atividades, esquecia o horário do balé, esquecia

da “lista para não esquecer”, e assim seguia. Minha mãe dizia que eu só não

esquecia a cabeça porque estava grudada no corpo.

Aos poucos, o esquecimento foi se achegando. Com toda sua magnitude e

infinidade, se alojou na minha cabeça. Morador comprometido e visitante assíduo

dos meus pensamentos, hoje ele é meu grande medo. Tenho medo de me

esquecer.

Temo isso porque sei que é algo que já está acontecendo. É definitivo, não tenho

pra onde correr. Dias atrás, me lembrei de um rosto que não tinha voz. Percebi

então que sequer o rosto eu me lembrava com clareza mais. Acho que nada nunca

me doeu tanto assim.

Como pude ser capaz de esquecer a risada que por anos foi a minha favorita? O

rosto, que antes eu poderia mapear e ditar cada pinta de olhos fechados, agora era

nada mais que um borrão. A memória, furtiva, se mostrou minha inimiga.

Acho que o esquecimento é algo que, de alguma forma inconsciente, todo mundo

teme. Medo irracional, real e inevitável. O esquecimento alheio faz com que o meu

maior medo seja, no final, ser esquecida. Um dia, perguntarão quem foi Cleópatra.

Um dia, não lembrarão de Rory Gilmore. Tenho medo do futuro em que tudo o que

fiz se tornará inútil, a inevitabilidade da deslembrança me assusta.

Medo fugaz que não me deixa pra trás. Mas tá tudo bem, daqui a pouco eu me

esqueço.



- Rory Gilmore

3 comentários


Carrie Grant
Carrie Grant
30 de nov. de 2023

texto muito bonito, também tenho muito medo do esquecimento. de nunca ser lembrada e n lembrar mais de ngm. todo ano tenho o recorrente sonho de que esquecem meu aniversário e sofro com isso

Curtir

Daphyinne
Daphyinne
14 de out. de 2023

Devo dizer que esse texto me emocionou bastante e me recordou de um filme de animação: "Viva - A Vida é Uma Festa" que, inclusive, aborda esse assunto de uma perspectiva bem abrangente. O filme nos recorda de que, enquanto houver amor, jamais seremos esquecidos por aqueles que têm apreço por nós. Belo texto, Rory Gilmore! Belas reflexões da avó do Anthony também, ela é muito sábia!

Curtir

Anthony Serra
Anthony Serra
14 de out. de 2023

Minha avó sempre diz que nos tornamos inesquecíveis com o amor, porque nossa morte será sentida, mas nossa memória viverá para sempre nos outros...

Texto muito bonito e muito bem construído!

Curtir

©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page