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Esquinas

  • Agá
  • há 22 horas
  • 2 min de leitura

O barulho do motor do carro é estrondoso. O escuto gritar desde a porta de casa até o fim de qualquer trajeto. Bom, pelo menos até onde eu julgo ser o fim. Nunca consigo chegar a um destino, já que meu carro velho e idiota sempre enguiça na mesma maldita esquina. Não importa o quanto eu faça reparos, o quanto eu o leve ao mecânico... ele continua enguiçando na mesma esquina.

E o mais cômico de tudo isso é que eu moro em uma rua sem saída, com rotatória obrigatória para a direita. Só consigo sair da estaca zero se enfrentar essa droga de esquina. E é o que eu tento fazer todos os dias. Tiro o carro da garagem, coloco meu cinto de segurança, ligo o motor e dirijo calmamente até o final da rua.

Já perdi a contagem de vezes que já fiz esse mesmo trajeto e de quantos motivos me fizeram acreditar que eu poderia enfrentá-lo. Mas nada funciona. No início, acreditei que era tudo uma questão de incapacidade, algo que talvez o modelo do meu carro não pudesse fazer. No entanto, com o decorrer das tentativas, notei que, a cada novo ciclo, a falha no motor ocorria cerca de 10 metros antes do desastre anterior.

E eu ainda não consigo entender o porquê. Na verdade, eu tenho só uma ideia do que possa ser. Acontece que a rua de casa é composta por diversas pedrinhas – daquelas que surgem de construções descontinuadas. E a cada trajeto diário, um pouco dos pneus se esvai, tirando a capacidade de progresso do meu carro. Pelos meus cálculos malfeitos, apenas isso seria capaz de explicar esse fenômeno tão esquisito. Isso e a falta de força dos meus braços quando preciso virar o volante. Isso e a leve pressão que meus pés fazem no pedal do freio. Isso e o suor frio que passeia por meu rosto quando encaro aquela placa indicando a saída.

Mas, no final, claro que a culpa é das pedrinhas.


— Agá

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