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  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 3 de nov. de 2023
  • 2 min de leitura

Atualizado: 17 de nov. de 2023

Querido novo IACS, temo pelo dia em que você não será mais novo. Sendo assim, dedico essa escrita sobre você do presente ao seu futuro. Recomeço então essa carta.

Querido não-tão-novo IACS, temos uma longa história juntos. Me lembro da primeira vez que vi o prédio alaranjado ao fundo da paisagem da uff: de pé, mas ainda inacabado. Tinha cerca de meia dúzia de pequenos montes de areia e pedras de construção ao redor, mais uma dezena de pessoas trabalhando para te estruturar e um céu azul incrível ao fundo.

Não me lembro de conseguir me imaginar ali dentro.

Por muito tempo ouvi que era lenda urbana. Era mais fácil a loira do banheiro aparecer e te fazer um convite de uma cerveja na Canta do que o prédio laranja inaugurar. Laranja, digo eu. Há quem diga rosa. O ponto é que um dia finalmente aconteceu. Suas portas se abriram e meus pés se recusaram a entrar.

Quando enfim passei em jornalismo, fui ao seu encontro em uma noite de julho. Me sentei na orla e fiquei olhando o prédio de longe. Me imaginei ali dentro pela primeira vez, mas, mais uma vez, não consegui entrar.

A orla, amiga amada de longa data, companheira de muitas tardes e anoiteceres, me viu tomar uma difícil decisão naquele dia. Tenho uma ligação esquisita com aquele lugar em específico. Uma área gramínea esverdeada guardada por refrescantes sombras de saudosas árvores, que com certeza tem mais idade e história do que eu. Bem em frente, o bloco laranja-rosa se faz gigante.

Esse lugar, que já me viu em tantas roupas, com tantos jeitos e gente diferente, sentiu o mais íntimo do meu ser e virou meu lar. Me abraçou e disse que era casa, ainda que sem dizer uma palavra. Me sinto pequena e insignificante em muitos cantos, esse não é um deles. Sentada ali, sempre senti que poderia percorrer a ponte Rio-Niterói correndo em cerca de cinco minutos, poderia chegar em casa apenas nadando pela grandiosa Baía de Guanabara, conseguiria terminar qualquer trabalho feito de última hora. Sempre senti que era privilegiada com o pôr do sol mais fraternal de todo o estado do Rio de Janeiro.

IACS, daqui um tempo você não vai ser mais novo. Suas portas vão fazer um barulho terrível ao abrir, o ar condicionado pode nem ligar mais e talvez até janelas lhe faltem. Daqui um tempo, suas paredes vão ser cobertas da mesma arte amadora que te compõe dia após dia e seu labirinto interno de salas vai estar decorado na cabeça de cada pessoa que pisar aí. Daqui um tempo, meus pés vão se recusar a cruzar seus portões pela última vez, assim como se recusaram a fazer isso da primeira. Mas, mesmo em muito tempo, você vai continuar tendo a vista mais bonita de todo o campus e eu prometo que meu espaço preferido sempre vai ser aos seus pés. Escrevo minhas iniciais em suas paredes na esperança de te marcar da mesma forma que você me marcou. Assim, em um ato de alívio, estendo minha canga, me deito, faço morada. Obrigada por me acompanhar nessa jornada.



- Rory Gilmore

8 comentários


Agenor de Miranda
Agenor de Miranda
04 de dez. de 2023

O IACS fica mais bonito aos seus olhos, Rory.

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Carrie Grant
Carrie Grant
12 de nov. de 2023

que texto lindo, de verdade!

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Motoserra
Motoserra
11 de nov. de 2023

que texto mais lindo, Rory! sou fã declarada dos seus textos e esse não foi diferente. adorei, adorei, adorei!

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Gabriel Capistrano
Gabriel Capistrano
07 de nov. de 2023

adorei o jeito e o carinho que você possui pelo iacs, também me pego pensando quando for a hora de me formar e lembrar de tudo que vivi nesses 4 anos

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Wintour
07 de nov. de 2023

Cada linha lida do seu texto me fez criar um carinho e uma saudade desconhecida de um simples prédio. Digo simples porque como podemos sentir apego e ficarmos emotivos com algo inanimado ? Ainda estamos no início do curso mas já fico emotivo e triste em imaginar como será a despedida do novo, ou não-tão-novo IACS. Agradeço por ter despertado esse sentimento em mim apenas com sua crônica. Eu simplesmente amei.

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