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Filha da Alcateia

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 29 de set. de 2023
  • 4 min de leitura

Atualizado: 17 de nov. de 2023

"Blém, blim, blém", bate o sino do ponto mais alto do santuário ao meio-dia. Geralmente, os sons entoados pelos sinos da igreja são sinais de breves marcações de horário, mas, neste dia, não. Hoje, a igreja fechou. Eu diria até que as portas celestiais se fecharam para mim e os habitantes de todas as partes da cidade vieram contemplar esse show de circo promovido pelos valores morais e rituais de libertação dos líderes católicos.


Nunca fui facilmente manipulável. Talvez, por isso, meus líderes religiosos nunca me concederam a oportunidade de comentar sobre os versículos bíblicos durante "os ensinamentos canônicos", falsas histórias bem contadas para enganar grande número de fiéis. Não que eu estivesse negando a veracidade da Bíblia, mas sim contestando a veracidade das revelações explanadas pelos meus doutrinadores.


O padre sempre fez questão de dar respostas rasas para minhas perguntas. Acho que ele já sabia que eu escondia fagulhas internas, assuntos mal resolvidos, conflitos comigo mesma, uma essência rebelde, quase bestial. Minhas energias sempre foram muito intensas, ferozes e eu, certamente, tenho falhado em escondê-las. Afinal, não é como se fosse fácil esconder o quanto eu não me sentia livre seguindo os dogmas e tradições que os meus pais me ensinaram. Por isso, tenho me escondido! Tenho reprimido a mim mesma e isso tem me ferido.


Neste dia foi intitulado pelo padre que a missa seria nas ruas, fora das paredes do templo. Alguns comemoravam dando glórias a Deus, um Deus que, por conveniência, não pode falar diretamente em nossas consciências, porque um homem de vestes sagradas se autodenominou nosso líder. Ai de mim, pobre alma proscrita, atribulada! Deus, podes me ouvir? Tudo o que ouço é parte de mim! Parte da minha consciência! Será que essa é a voz de Deus? Ou seria a voz do Ego?


Os líderes se reúnem em fileira e o povo, completamente influenciado pelas palavras de libertação, aplaudem mais um atentado contra o espírito selvagem que habita em cada um de nós. Mulheres de diferentes personalidades com as mais variadas crenças, com os mais variados desejos, com as mais vigorosas paixões tiveram a liberdade autocensurada no momento em que o azeite foi derramado sobre suas cabeças. Algumas choravam, não de alegria, mas de dor. Outras se mantiveram firmes até o último segundo, porque preferiram abdicar de quem são, de sua própria fé e, especialmente, de seus verdadeiros desejos do que aprender a lidar com suas próprias vontades.


Meus olhos observam a cena e minha alma arde em chamas. O anseio por liberdade. A vontade de fugir para a floresta ou de me refugiar em um jardim de girassóis, meus campos Elíseos, e me aconchegar na grama, cantando canções para a lua, enquanto eu danço ao som de melodias apaixonantes com meus pés descalços e meus cabelos despenteados envolve o meu ser. A tranquilidade transmitida pelos ventos de abril e o uivar dos lobos se torna minha prece. Nas minhas veias, sinto o sopro da vida. Nos meus lábios, a doçura. Nas minhas mãos, a cura. Nos meus pés, a conexão com a natureza e, na minha consciência, a sabedoria das ancestrais.


Tenho passado por uma metamorfose ambulante. Almejo essa liberdade! Liberdade para me vestir como quero, falar como quero, comportar-me da maneira que eu desejar, porque, afinal, o que é ser uma dama? O que é ser católica? Usar vestidos longos e ficar calada quando os homens estão à mesa? Agir com submissão e cortesia? Perdoe-me, pai, mãe, mas nunca fui conhecida pelos meus bons modos. Eu quebrava regras em silêncio e, depois, culpava a mim mesma por ter cedido aos meus desejos, mas acho que tudo isso faz parte da minha evolução.


"Tique-taque, tique-taque, tique-taque", bate o relógio da vida em meu espírito, espírito flamejante que pede forças para resistir a mais uma violação contra minha real identidade. "Tum, tum, tum", bate o relógio biológico em meu corpo, pulsando intensamente em meu coração, todas as vezes em que me mantenho acordada encenando "fantasias" com recortes ideais daquilo que desejo, um cenário platônico, eu diria, do qual nem sempre sou capaz de me desprender em meus mais preciosos fôlegos de vida. E o meu peito arde como nunca, porque minha verdadeira fé tem sido reprimida e meu verdadeiro eu anseia em êxtase por liberdade.


Não pude suportar mais um minuto. Quando a próxima mulher se aproximou do padre, eu me retirei e corri para a floresta. Eu segui o riacho. Minha intuição dizia que eu saberia o que fazer quando chegasse a hora. Então, avistei uma macieira perto do rio e apoiei meu corpo sobre seu caule, desfrutando da sombra que ela fazia e, ali, eu finalmente pude sentir, sentir-me feliz, sentir-me completa. Soltei um suspiro e abri um enorme sorriso, afinal, é como dizem as canções dos ancestrais: "Lembre-se disso... Quando você se sentir perdida, o rio sempre te levará a se encontrar" e eu me encontrei. Aliás, me reencontrei. Hoje, posso dizer, sou uma mulher livre, meu espírito é selvagem, minha alma é um enigma, meu corpo, um labirinto, minha vontade, impreterivelmente fatal. Eu sou filha da alcateia e meu desejo há de se tornar realidade!


Ela acordou ofegante e assustada. Seu peito arfava em desconforto e um leve grunhido escapou dos seus lábios. Então, no fim, nada daquilo foi real. Ela nunca havia tomado nenhuma decisão. Ela se entristeceu por isso, mas sentiu crescer a sua vontade de lutar pela liberdade e, por enquanto, já que ela ainda não criou coragem de se libertar na realidade, ela poderia simplesmente curtir essa liberdade no seu mundo imaginário. Os sonhos dela... a representação mais bonita dos seus desejos mais viscerais.


- Daphyinne

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