Histórias inacabadas
- Manuella
- 19 de set. de 2025
- 1 min de leitura
Sempre tive atração por começos. Pela energia do desafio, pela sensação de conquistar, de
provocar o outro. Mas quando percebo que já conquistei, vem o medo. Medo de me entregar, medo de amar. Começo a perceber o rastro deixado quando o coração se entrega, e logo depois sente a dor de ter sido enganado pela ilusão da reciprocidade. E, cada vez que a vida parece me empurrar para além do começo, eu recuo. Não é que eu não queira — eu quero. Mas o medo toma o controle. E, ironicamente, me vejo repetindo com os outros o que já fizeram comigo.
Eu era jovem.
Você também era jovem.
Eu tinha medo de te mostrar pro mundo.
Eu sei que não foi justo.
Faltou coragem pro amor.
No amor, eu me escondo.
Vivo a paixão, mas não atravesso.
Fico na borda, criando desculpas.
Me apego e, ao mesmo tempo, empurro.
Quero estar, mas fujo.
É um medo que me prende,
que me afasta daquilo que desejo.
E, no vazio que fica, o arrependimento se instala.
Talvez seja essa a forma mais cruel de arrependimento: não o de perder, mas o de se privar. É o arrependimento de não se permitir viver uma história por medo do que pode acontecer no último capítulo. E assim sigo, colecionando começos interrompidos, amores inacabados, vínculos que desfaço antes que tenham a chance de me desfazer.
Tenho medo de amar e acabar sozinha.
Mas ao negar o amor, não é justamente sozinha que acabo?
Aurora Lispector

Muito bem estruturado e as palavras sempre bem escolhidas e posicionadas
A construção do texto ficou perfeita! Parabéns !
Adoro antônimos tão perto uns dos outros, parabéns pela certeira escolha de palavras.