Império dos Bichos
- gabriel gonçalves
- 3 de nov. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 17 de nov. de 2023
Eram 18:47h e eu ainda encarava o chão. Pensativo, tento fotografar mentalmente os detalhes que minha câmera não foi capaz de capturar. Minhas retinas captavam imagens da grama meio esverdeada, meio amarelada, notavam tamanhos irregulares, padrões pouco uniformes, terra úmida nos pés, marcas de pneus desenhadas no solo e pequenas pegadas carimbadas no chão.
Na mais simples obra-prima da natureza, um gato de rua deixa sua assinatura. Suas patas afundam no solo e o gatucho passa por mim minuciosamente, cruzando as suas quatro patas, desfilando com sua bela pelagem tão convencido quanto um gato de madame, só que sem coleira.
Ele é o dono do lugar. O Imperador da Noite. Ele caminha como se estivesse balançando os quadris com um certo rebolado que qualquer garota do fundamental gostaria de ter. Ele tem o gingado de Elvis Presley e aquele jeitinho "nariz empinado" estilo "Patricinhas de Beverly Hills", mas era só um gato.
Era só um gato. Um gato de rua de pelagem tigrada. Era só um gatucho esperto. Não. Era mais do que isso. Era o dono do covil. O líder do clã. Era valente como o Gato de Botas. Era um gato de rua sem raça específica, mas erguia a cabeça tipo um gato angorá, Seu Comandante-Gato.
Ele caminha até as caçambas de lixo como quem não se preocupa com a opinião alheia, dá um salto exemplar e sobe em cima da caçamba. Era só um gato de rua. Não. Era um atleta olímpico, medalhista de ouro cinco vezes seguidas. Animalesco? Não. Apenas não era humano, mas fazia do Reino dos Homens seu reinado.
Era um bichano esquisito, revirava as sacolas de lixo e não parecia estar em busca de comida. Fazia o que fazia e quando queria. Bicho estranho, todo sujo. Tinha um senso de classe questionável, mas não abaixava a cabeça. As câmeras de vigilância flagram a cena e o segurança pensa que é só mais um gato de rua abandonado.
Gato engomadinho. Gato “playboyzinho”. Cheio de vontades. Cheio de "mando aqui, mando lá, mando cá", de pouco juízo. Gato de rua com transtorno de personalidade.
Ele olha para o lado. Observa o mar de longe e o reflexo da lua na superfície das águas. Idealiza como sua vida seria se não fosse um gato, se fosse apenas um peixe talvez... um mísero peixe se aventurando nas águas. “Não seria tão divertido assim.”, ele pensa. Pelo menos, não tanto quanto ser um gato.
Gato de rua malandro. Esperto igual Aladdin, só não tão generoso como ele no fim da dramaturgia. Gato Narciso, chefe dos 40 ladrões. Gato de atitude impositiva, provocativa. Seu semblante é mais intimidador que o de muitos homens de grande porte.
E ele saltou de volta para o chão, infiltrou-se na noite, andou até a grama alta e, de repente, foi-se no meio do mato. Foi marcar território em outro lugar, área VIP, reservada para um Imperador-Gato.
"Não, não é um animal racional", dizem os cientistas. Sim. Isso é ciência! E quem irá questionar? Pois bem, só não pense que está no controle de tudo. Afinal, este é o Reino dos Gatos. Domínio não é só coisa de homem, pois o dia até pode ser dos homens, mas a noite é Império dos Bichos.
- Daphyinne


que crônica sensacional, Daphyinne! eu amo gatos e me peguei totalmente presa na sua narrativa! quero conhecer esse gatinho que me lembrou tanto do gato de Coraline! parabéns pelo texto :)
Encantado como seus olhos e sua mente conseguiram pensar no inimaginável e fugir do trivial. Adorei mergulhar na sua crônica e me aventurar na sua história. Mal posso esperar para a próxima!
Daphyinne, acho que não avaliamos o mesmo ambiente naquela terça-feira. Sua perspectiva é muito melhor do que a minha. Qualquer um pode escrever sobre os aspectos citados no primeiro parágrafo, mas apenas sua mente genial poderia se enraizar na visão de um gato de rua. Mais uma vez, excelentes analogias.
Gostei muito da sua analogia e da sua percepção com a paisagem. Ansiosa pela próxima crônica.