Insolação de Desamor
- gabriel gonçalves
- 28 de mar. de 2024
- 2 min de leitura
O deserto é imprevisível. As estradas também. Nunca se sabe quando, nem onde os desastres podem acontecer. As tempestades de areia assustam os velejantes, tal como as chuvas torrenciais de novembro afastam a calmaria do mês de abril.
O Sol, deveras escaldante, ferve em nossas cabeças e o suor e as lágrimas de uma jovem pintam sua bronzeada pele de sabores ácidos e amargos. As chamas se alastram pela vegetação seca e rasteira que envolve as rodovias de uma pequena cidade do interior do Sudeste e, por isso, mais uma vez, a Terra chora em ebulição.
Hoje, o Sol amanheceu furioso. Sua raiva foi acesa por um coração partido. Suas brasas incendiaram um campo inteirinho de rosas. Pobre Sol, deixou-se apaixonar por uma rosa que apenas o feriu. A Terra pede socorro. Não consegue respirar com tantos ares tóxicos e, neste planeta quente como fogo, o Sol despeja seus raios ultravioletas sobre a jovem sentada na varanda de sua casa, gritando silenciosamente e internamente, implorando para que as feridas cravadas em sua epiderme, as marcas de uma dolorosa traição, cicatrizem.
Sua pele ardia pela exposição ao Sol. Eram duas da tarde e os termômetros marcavam elevadas temperaturas, mas o calor não parecia surtir muitos efeitos nela, exceto uma forte enxaqueca e uma histeria descontrolada pelas mil e uma doses de desilusão que ela consumiu para se desfazer em pedaços completamente, só que dessa vez, temporariamente.
Em casa, ventilador quebrado, sem ar-condicionado, o chão quente e a geladeira desligada, porque faltou luz elétrica no bairro. No coração, um punhal envenenado cravado covardemente em suas emoções, uma supernova destruidora de paixões e um cão devorador da esperança.
Sua alma sofre de insolação. Insolação causada por um ex-amor. Talvez, um desamor, por mais cruel que seja ter de lidar com esse devorador. Ela foi até o inferno por ele. Atravessou as chamas por ele. Lutou contra inseguranças, medos, traumas. Lutou contra demônios para ter uma mísera prova do amor dele, mas isso não foi suficiente. Não, não foi.
E, mais uma vez, lá estava ela, a mulher mais forte que eu conheço, quebrantada em pedaços, mais uma vez. Se reerguendo do chão, mais uma vez. Enxugando as lágrimas, mais uma vez. Tomando sua coroa de volta, mais uma vez, porque ela não se renderia tão facilmente. Lá estava ela, de cabeça erguida, abrindo um sorriso novamente, porque, afinal das contas, nesta vida, nenhuma mulher morrerá por um falso amor, assim como nenhuma rainha morrerá de insolação de desamor.
- Daphyinne


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