Mais Uma Vez, Amanhã
- Priscila Bandeira
- há 22 horas
- 2 min de leitura
Abrir os olhos nunca é só abrir os olhos. Na fração de segundos em que acordo, uma corrente de estímulos logo atinge o meu cérebro. Basta uma piscada, e os pensamentos já se acumulam, sem me dar espaço para escolher o que fica. O dia já nasce pesado, antes mesmo dos meus pés sentirem a temperatura do chão.
Acordo enjoada, e a ideia de comer algo é suficiente para me imobilizar. Decido por uma xícara de café. Amanhã farei um sanduíche com ovos, estou precisando me alimentar bem.
Amanhã também dormirei mais cedo. Iniciarei o livro que acumula poeira na minha mesa de cabeceira. Me inscreverei nas aulas de yoga. Separarei tempo para estudo. Amanhã eu viro alguém que eu respeito.
Hoje, no entanto, o café desce mais amargo, quase o suficiente para me fazer desistir do próximo gole. Ele carrega promessas grandes, não cumpridas. Hoje ele tem gosto de preguiça. E eu evito encarar o fundo da xícara.
Eu me observo de fora, familiarizada com o final da história. A xícara esvazia, o estômago continua vazio. E a lista de intenções permanece rascunho.
Não é falta de consciência ou de saber. É quase o contrário. Pensar demais me paralisa, e as objeções surgem como segunda natureza. Eu escolho o desvio. Existe um certo conforto em continuar sendo meu próprio atraso. Dessa maneira, a decepção vai ter sempre apenas um culpado e uma vítima, entrelaçados na mesma pessoa e brigando por espaço.
É falta de tempo, de talento. É a época do ano. É o pouco resultado em curto prazo.
Mas no silêncio da manhã, entre a xícara e o estômago vazios, antes de qualquer desculpa, sou só eu, decidindo, mais uma vez, não me ajudar.
E já sabendo que amanhã vou prometer de novo.
— Priscila Bandeira

Gostei mutio do texto, bem escrito