Mantra
- Eva Rubisco
- 27 de mar.
- 2 min de leitura
“Os filhos precisam ser melhores que os pais”. Esta é a frase que ecoa todos os dias na minha mente. Não lembro da primeira vez que ouvi, pois pra mim este pensamento sempre esteve comigo. Ainda assim, a voz de meu pai volta todos os dias me lembrando do que deveria ser minha realidade.
Se me perguntarem se passei por muitas dificuldades na vida, é provável que eu diga que não, mas existe um medo que percorre quase todos os 20 anos que estou viva. Acho que o que se tornou meu mantra diário se firmou naquela tarde, quando aos 8 anos de idade eu não entendia muitas coisas sobre a dificuldade de ser um adulto provedor da casa. Com minha inocência eu só sabia uma coisa: não aguentava mais me alimentar da mesma coisa todos os dias. Arroz, feijão e ovo. Arroz, tomate e ovo. Arroz e ovo. Ainda lembro de quando verbalizei o que sentia, sem saber controlar minhas emoções e, consequentemente, meu tom de voz. De forma parecida, recebi uma resposta também sem controle: “você ainda não entendeu que só dá pra ser isso?”. A voz de meu pai, quase sempre amorosa, estava alta naquele momento, acompanhada da expressão facial descontrolada e a única nota de 50 reais restante para passar o mês, que havia sido jogada no chão.
Talvez essa seja a origem da minha relação conturbada com o dinheiro, fonte das minhas inquietações e maiores crises de ansiedade. Não acredito que o valor ou o tamanho de alguém sejam medidos pelo quanto. Mas e se um dia eu não cumprir a profecia que me foi jogada de ser “melhor” que meus pais?
— Eva Rubisco

Seu texto é muito profundo e tem uma escrita muito boa!