Mundo Inverso de Alice
- gabriel gonçalves
- 27 de out. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de nov. de 2023
Eu deveria ter ouvido. Deveria ter dito. Deveria ter feito e tentado até o último batimento cardíaco. Deveria ter sido menos rigoroso e mais fiel a mim mesmo. Deveria ter lutado pela justiça, mas fui covarde demais e me permiti ser isolado no País Sem Maravilhas.
Rapidamente, minha identidade foi sendo arrancada de mim. Tudo foi tão rápido que, num piscar de olhos, eu me vi na toca do coelho branco. Sem que eu percebesse, eu já havia me perdido nos ponteiros do relógio, nos goles anestesiantes das xícaras de chá e, cá estava eu, me autossabotando mais uma vez, sentindo o sabor amargo da minha derrota quando me rendi a Alice.
Alice sempre foi alucinógena. Um estratagema mental psicodélico. Um corpo sagrado e profano. Um templo corrompido e uma alma pura manchada de rubro. Ela é um coração valente, mas também é um golpe fatal. Uma kunai afiada. A própria Excalibur de Arthur, mas usada para o mal. Alice é o ópio das minhas veias e minha desistência da vida. É como lítio insuficiente para calar as vozes que estendem minha dor. Alice é a minha consciência me autossabotando de novo. Alice é meu inimigo mais mortal: meu próprio eu. O eu contra o eu mesmo ou parte do meu eu.
Sinto-me numa guerra implacável contra minha própria mente. Se eu pudesse, faria tal como a Rainha de Copas e ordenaria que "Cortem-lhe as cabeças", mas sei que isso não me ajudaria a vencer minhas batalhas.
Embora ainda não compreenda com excelência, continuo nesse embate entre ser fiel ou infiel ao meu verdadeiro eu, às minhas convicções e aos meus planos de vida. Sigo tentando não anular os meus propósitos e ideais e, nesse conflito incessante, Alice nunca me deixa em paz.
Já faz três anos que eu desisti de mim. Desisti da minha carreira, do grande sonho da minha vida. Abandonei a Mossad. Desisti de ser um dos integrantes de umas das maiores agências de espionagem do mundo e a verdade é que eu nem sei o porquê.
Eu tenho tentado entender, mas sinto que, a cada passo que dou, tenho enfraquecido mais e mais e minha cabeça não suporta esses gatilhos emocionais. Alice tem se apoderado de mim. Minha pele tem se rasgado em pedaços e, depois de tantas mortes, tantos conflitos, tantas perversidades e tantas injustiças que eu presenciei, vivi e confesso que até cometi, não há mais lágrimas para serem derramadas. A frieza se instaurou no meu peito e, hoje, sou Homem de Lata vagando na terra mágica de Oz, sem um coração, mas almejando tê-lo. Sou Leão Covarde almejando ter coragem. Sou Hades longe de Perséfone, afogando-me nas profundezas do Tártaro, afastando-me, dia após dia, dos Campos Elíseos da minha mente.
"Perséfone, meu paraíso, onde foi que me perdi de você? Quando foi que te reprimi e me deixei levar por Alice? Perséfone, minha resistência, minha força, por que não ouço mais sua voz? Por que não se manifesta? Por que desistiu? Por quê? Por quê? Imploro a ti que me diga. Onde foi que me perdi de ti? Onde? Onde?", questiono-me, enquanto meus pensamentos se confundem no turbilhão de memórias que atingem minha reflexão.
Eu queria ser capaz de sentir de novo, mas me afasto duramente das pessoas quando elas tentam se aproximar de mim. Talvez seja pelo que passei na Mossad, mas isso não justificaria minhas atuais desistências como quando desisti de abrir aquela oficina mecânica, outro sonho meu. Eu me autossaboto. Não me permito agir a favor de mim mesmo. Eu caminho em direção ao insucesso e não sei explicar o porquê.
"Alice, diga-me, por que tanto me tortura? Por que me destrói? Por favor, não cultive a raiva, não resgate o rancor, nem direcione seu ódio a mim.", indaguei-me, enquanto minhas mãos estavam manchadas com o sangue de estrangeiros. Fui treinado para enxergá-los como inimigos e matá-los à sangue frio, sem discernir os culpados dos inocentes, sem oferecer a eles um julgamento justo. Agora, meu ser está em decadência e eu não sei mais para onde devo olhar.
Sinto-me de ponta cabeça. Quero confiar em alguém, mas não consigo confiar em ninguém. Quero voltar a investigar, mas tenho medo que eu não suporte mais uma injustiça cometida contra algum inocente e que me afogue nesse oceano de desistências do qual tenho me esforçado para sair.
Quanto às minhas ideias, eu desisto de quaisquer uma delas antes mesmo de pensar em uma forma de torná-las reais. Para minha infelicidade, isso tem se tornado um círculo vicioso e não encontro a cura em lugar algum. E, de repente, quando eu menos esperava, sou levado de volta ao País Sem Maravilhas e me vejo caindo novamente nessa autossabotagem compulsória.
E é assim que acontece. A injustiça esfria o coração. A frieza contamina a alma. A alma suja te afasta de sua verdadeira essência e esse afastamento se reflete em quem quer estar na sua companhia. Assim, eu fui me anulando. Assim, eu fui me desintegrando. Assim, eu fui me autossabotando e essa é a minha história. A história de como eu cai. Cai onde, um dia, predisse. Eu cai. Cai no mundo inverso de Alice.
- Daphyinne


Um lindo texto Daphyinne. Me impressiona como mistura muitas ideias e mundos sem perder o fio da meada. Tão vivo em guerra eterna com "a minha própria Alice", ela me fez me perder nos meus pensamentos e hoje me encontro em algum lugar que nao reconheço, devo ter batido a cabeça com força, já nao sei quem sou, quem quero ser e quais são meus sonhos e objetivos, só sigo e vago pelo tempo e espaço que me encontro. Mas de uma coisa eu me lembro, lembro que já fui "minha própria Perséfone", nao sei como deixei que partisse, só sei que sinto muito sua falta
daphyinne, confesso que já sabia que esse texto seria seu antes mesmo de abrir. confesso também que sou suspeita pra falar sobre seus textos pq eles têm o poder de me prender. esse, principalmente, serei completamente não confiável para opinar, pois você mexeu com o meu ponto fraco: sou completamente apaixonada por alice nos país das maravilhas.
sua crônica me remeteu bastante a um livro pouco conhecido chamado “O lado mais sombrio”, podemos dizer que é o mundo invertido de alice hahaha — indico a leitura.
ótimo texto, adoro suas analogias. ansiosa pro próximo :)