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Não pode ser ela, nunca

  • T. Davison
  • há 24 horas
  • 2 min de leitura

O caminho até o cartório é curto. As mesmas ruas, os mesmos horários, o mesmo fluxo previsível de pessoas. Há um certo conforto nisso.


No interior, o ambiente segue como sempre, funcional e silencioso. Troco poucas palavras com os funcionários. Mais do que isso seria excesso.


— Os documentos da última averbação estão na sua mesa, doutor.


Assinto.


— Deveriam ter sido revisados antes.


A resposta vem em silêncio, como de costume.


Entro no meu escritório. Fecho a porta com cuidado, como se pudesse impedir que qualquer desordem atravessasse aquele limite. Sento-me. Abro o primeiro documento. Leio. Releio. Nada fixa. O pensamento retorna, com uma insistência incômoda.


Não é adequado. Porque eu fiz aquele chá para ela?


Dessa vez, não há hesitação na conclusão. Ela não corresponde ao que se espera, ela não atende aos critérios mínimos que sempre considerei necessários, ela não seria, sob qualquer análise, uma escolha coerente.


Insistir nisso seria um erro. Fecho o documento e permaneço alguns segundos em silêncio, sustentando a própria decisão como se fosse suficiente para encerrar o assunto.


Não é.


Ela não seria uma escolha racional, e é por isso que deve ser descartada, sem margem para reconsideração. Qualquer outra postura seria descuido, e eu não cometo esse tipo de erro.


Nunca.


Retorno no mesmo horário de sempre.


A casa já não está em silêncio absoluto. O som contido de objetos sendo organizados, a repetição cuidadosa de gestos que reconheço antes mesmo de vê-los.


Ela está de costas, concentrada em algo sobre a bancada. Há uma precisão nos movimentos, ainda que hoje pareçam levemente desalinhados. Não deveria notar esse tipo de variação.


— Chegou mais cedo hoje.


Sei que se atrasou, mas sinto uma necessidade incompreensível de comentar algo. Ela se volta, por um breve instante e hesita, com seus cachos presos em um coque bagunçado e os grandes olhos de cervo. Ela é tão bonita. Porque eu estou notando isso?


— Me atrasei, na verdade.


Assinto. Não há motivo para prolongar a conversa. Permaneço ali por tempo suficiente para que o silêncio se torne desconfortável. Inconvenientemente, pego o mesmo jornal que já havia lido de manhã e sento-me à mesa, abro na mesma página de sempre. Porque estou aqui? Tenho mais coisas para fazer.


— O chá estava… adequado.


Ela diz sem erguer o olhar. Não é um elogio. O comentário me deixa desconfortável e permanece no ar por tempo demais.


— Evite alterar a rotina sem aviso.


A frase surge seca, deslocada do contexto imediato. Agora, sim, levanta os olhos, são tão lindos.


Ela me encara por um segundo a mais do que o habitual. Não há confronto explícito, mas há algo ali que resiste à ser corrigida. Sustento o olhar apenas o suficiente. Não posso, em hipótese alguma, deixar me alterar pelos seus olhos.


— Compromete a organização da casa. – respondo


Não é verdade. A casa permanece exatamente como deveria. Desvio o olhar primeiro. Me levanto da mesa, como se isso encerrasse qualquer possibilidade de continuidade. E, de certa forma, encerra. Não posso querer ela.


— T. Davison

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