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O DIA QUE NÃO TERMINOU

  • Hermes
  • há 23 horas
  • 2 min de leitura

Por mais de uma década, minha vida tem sido assim. No início, tudo funciona. Há entusiasmo, planos, uma organização quase convincente que faz parecer que, desta vez, vai. Eu escolho com cuidado, começo com método, me permito até imaginar o que aquilo pode se tornar. Não é falta de vontade; não, há sempre vontade demais nessa fase. Tudo caminha muito bem.

O problema é revelado quando já não se trata mais de iniciar. Quando as coisas começam a dar certo, quando passam a exigir continuidade, repetição, presença. Eu ainda gosto, ainda vejo sentido, ainda poderia continuar. Nada ali está quebrado. E talvez seja justamente isso.

Então eu paro. Não aos poucos ou por distração. Paro de forma limpa, até precisa. Interrompo no meio, abandono sem concluir, fecho como quem decide que já foi o limite. Não há um grande motivo ou um acontecimento específico que justifique; apenas a certeza, difícil de explicar, de que seguir adiante seria mais do que estou disposto a sustentar.

O que vem logo em seguida não é exatamente arrependimento. É algo mais silencioso, uma espécie de alívio. Como se eu tivesse evitado um tipo de compromisso que não sei nomear, mas reconheço como excessivo. Mais tarde, quando olho para trás, vejo os mesmos pontos de interrupção — projetos, relações, caminhos —, todos deixados no momento em que poderiam, finalmente, se tornar alguma coisa.

E, ainda assim, o que permanece não é escolha ou decisão: é um espaço aberto, contínuo, difícil de ignorar. Um vazio que não vem do que acabou, mas do que nunca chegou a existir por inteiro. É como se tudo tivesse sido interrompido antes de ganhar peso suficiente para se sustentar, e agora restasse apenas isso: uma sucessão de começos sem corpo, sem continuidade, sem nada que pudesse, um dia, ser chamado de fim.


Hermes

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