Odeio sentir esse ódio
- Manuella
- 12 de set. de 2025
- 2 min de leitura
Eu poderia vasculhar minha mente em busca de uma sombra desconhecida, algo escondido
nas profundezas da minha psique, mas a verdade é que eu já conheço a minha sombra, e faz
tempo. É algo que eu odeio em mim mesma, uma parte que venho tentando mudar há anos,
mas é difícil mudar algo que parece estar impregnado no meu inconsciente.
Gostaria de conseguir descrever melhor a minha infância, mas minhas lembranças são
escassas, obviamente eu relembro certos momentos quando vejo fotos antigas ou quando a
família comenta sobre alguma situação, entretanto tudo parece meio bagunçado na minha
cabeça, quase como uma névoa que não permite que eu lembre de tudo. Mas certos
momentos eu nunca esqueci, principalmente do que esses momentos me fizeram sentir.
Os meus pais costumavam brigar muito, eles se amavam intensamente mas em certos
momentos pareciam se odiar tanto quanto. Era comum haver gritaria, discussões intensas e
xingamentos, lembro de separar inúmeras brigas e de chorar com frequência.
Eu não acho que seja certo eu colocar a culpa nos meus pais, mas ainda assim é impossível
ignorar a sensação de que talvez parte do que eu carrego hoje comigo, um ódio tão intenso no
peito, tenha raízes em tantas brigas deles que presenciei.
Não sei exatamente em que momento me tornei alguém tão reativa, tão cheia de raiva e
com tanta pouca paciência, só sei que isso já me afastou de amizades, me trouxe conflitos em
relacionamentos e me fez muito mal por dentro. Sinto que eu não consigo ser a pessoa que eu
gostaria de ser.
Essa minha grosseria, infelizmente, se manifesta especialmente com os meus pais. Mesmo
os amando mais do que tudo, é com eles que acabo sendo mais dura. Talvez porque no fundo
eu sei que eles sempre estarão ali por mim e não irão me abandonar, mesmo quando o meu
pior lado surgir. Eu odeio sentir esse ódio.
Então a verdade é que eu já reconheci a minha sombra.
Sei de onde ela veio, sei como ela age e conheço muito bem o estrago que ela causa.
Então o que falta para me livrar dela?
Acho que coragem.
Coragem para não me esconder mais atrás do passado.
Coragem para parar de transferir a culpa dos meus atos.
Coragem para ser quem eu quero ser e não quem a raiva me ensinou a ser.
Só reconhecer não basta mais...
Ou eu encaro a sombra, ou continuo sendo moldada por ela.
Aurora Vienna

Gostei da estrutura final do texto!