Preto e prata
- gabriel gonçalves
- 28 de mar. de 2024
- 2 min de leitura
Lembro vagamente da minha primeira memória. Ainda menino, meus pés descalços e sujos de poeira tropeçavam pelos caminhos de terra da fazenda. Não consigo me recordar se o sentimento de não pertencimento já me fazia companhia, se a fome de liberdade embrulhava meu estômago ou se o grito preso clamando por mudança me secava a garganta. No entanto, me lembro de caminhar e chamar por minha mãe. Não sei se a encontrei.
Ao longo da vida, fui sendo construído como alguém sem nome, enquanto Dona Alzira fazia questão de reforçar que eu tinha até mesmo apelido e endereço. Ela me contava com um orgulho palpável – sempre que me açoitavam no tronco e minhas feridas precisavam ser limpas – que eu carregava o nome de meu avô, homem grandioso que nunca havia abaixado o olhar perante senhores. Minha mãe já não chorava ao tocar meu sangue, acho que a certeza de um mundo além se tornou refúgio e motivação para não desistir depois de tanto tempo.
Me lembro bem do dia que fugi, levando comigo nada além da promessa de um lugar para aqueles como eu. Nunca havia corrido tão rápido em toda a minha vida. Diferente da minha primeira memória, não sentia meus pés descalços tocando a terra. Era como se voasse. Todos os músculos do meu corpo adormeceram, exceto o coração, que se fez música em meus ouvidos durante horas não contadas.
As memórias que coletei a partir desse dia fazem parte de quem fui e ainda sou. Nasci naquele 14 de novembro de 1920, assim que pisei no quilombo. E ali lutei, amei, semeei vida e morri. Me enterraram ao lado de meus irmãos, mas não parti vestindo a minha história. Ela ainda vive na boca dos que sobraram, ainda se perpetua e permanece a sete palmos do chão. Fui o homem mais rico daqueles cantos. Minha pele preta é a minha prata.
- Dante


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