Querida tia
- Joan of Arc
- 27 de mar.
- 2 min de leitura
Querida tia,
Poderia começar esse texto de várias formas…
Poderia contar uma história, poderia fazer um filme, poderia escrever uma série de livros, poderia alugar um outdoor, poderia expressar em mil e um lugares o trauma que você me causou.
Mas porque simplesmente falar de você, quando eu poderia falar com você?
Lembro como se fosse hoje, quando ganhei meus primeiros fones de ouvido:
Veio no meu ovo da Páscoa de 8 anos, fones grandes e roxos conectados a um MP3 e dentro de um grande ovo de chocolate que simbolizava toda a alegria infantil.
Ficava ansiosa em poder usar meus novos fones, mas por sua causa, nunca consegui.
Meus pais têm um casamento perfeito, meu lar é calmo.
As brigas nunca foram um acontecimento aqui, isso é, até você chegar, morando infelizmente na casa embaixo da minha.
Por algum motivo que eu gostaria que você me explicasse qual, você pegou uma implicância, um ódio pelo meu irmão.
Gritava com ele, ia pra cima dele, ameaçava ele…
Por que tia? Ele tinha apenas 18 anos.
Minha mãe, religiosa, achava que era algo diabólico.
Meu pai, seu irmão, achava que era ciúmes pois o pai de vocês gostava mais do meu irmão do que de você. Falava que você era infeliz.
Eu, uma criança de 7/8 anos aterrorizada e com um medo fictício de você matar meu irmão, a pessoa que eu mais gostava no mundo, achei que você era um monstro. Daqueles que eu via nos desenhos.
Comecei a ter pesadelos, em que tudo que você gritava pro meu irmão, acontecia.
Sonhei que você era um monstro feroz, com garras que arranhavam ele;
Sonhei que você destruía minha casa, como daquela vez que você prometeu quebrar tudo.
Às vezes acordava com vcs brigando, você falando coisas horríveis e meus pais defendendo meu irmão;
Às vezes eu parava de brincar com minhas amigas dizendo que vocês estavam brigando de novo e ia lá tentar ajudar.
Mas eu nunca, nunca mesmo durante toda minha infância consegui usar os malditos fones de ouvido.
Assim que eu colocava na orelha, ouvia gritos, brigas, coisas quebrando.
Quando eu tirava, silêncio.
Era minha cabeça que criava tudo.
Por sua culpa.
Com o tempo você melhorou, parou com as brigas.
Hoje frequenta até o Natal em família.
Depois de muito tempo, depois de muito trauma.
Hoje eu consigo usar fones, hoje eu não sonho mais com você.
Mas eu sempre penso nisso. Acho que isso não se apaga para sempre.
Esse é só um dos vários traumas que você me causou, esse dói na alma.
Esse eu não consigo entender, esse você não fala sobre, esse você não tenta consertar.
Você nunca lerá essa carta e eu nunca vou falar em voz alta.
Mas escrever me ajudou, lá no fundo curou;
Fico em paz, e de você, não falo mais.
Dizem que traumas nos deixam mais fortes, mas eu não precisava ser mais forte, eu tinha só 8 anos.
Espero que carregue pelo menos um pouco de culpa, ou quem sabe um arrependimento.
Tchau tia, você não é mais o monstro da minha vida.
De sua sobrinha.
— Joan Of Arc

Parabéns pela escrita, de verdade!
Gostei do formato de carta