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Selvagem demais para o rebanho

  • Clarisse D'Orsay
  • há 21 horas
  • 2 min de leitura

Tudo estava finalmente se encaixando: não sentia mais meu corpo se derretendo com o calor exagerado, as pessoas que antes pareciam tão hostis e distantes agora eram tão solícitas ao mais simples pedido, suas gírias não me eram mais estranhas tanto quanto a pronúncia exagerada da letra “s”. Acredite, eu não me perdia mais entre as ruas pacatas, pelo contrário andava por elas distribuindo comprimentos e sorrisos educados e também sabia qual era o melhor lugar para encontrar os amigos numa sexta-feira qualquer e quem sabe até dar uma risada sincera, se fosse sortuda o bastante. Ainda assim, eu não conseguia me sentir como se estivesse vivendo meu conto de fadas, com a vida que trabalhei arduamente para construir.


Por isso, o medo acabava sempre me consumindo, medo de que aqueles que me cercavam descobrissem essa minha insatisfação inquieta, que entendessem que eu nunca poderia pertencer a aquele lugar, que eu não era uma “Loba em pele de cordeiro” porque nunca quis atacar um rebanho indefeso, mas um outro tipo de besta mais temível que tentou a todo custo esquecer que era selvagem em um empenho falho de pertencer ao rebanho.


Pouco a pouco, esse sentimento foi se solidificando na minha mente com raízes profundas demais e interferiu diretamente na pior lente possível pela qual eu sempre me enxergava, como me portava de forma contida e polida, escondendo o que eu achava que não seria aceito. Até que demorou, mas aconteceu, destruí tal “final feliz”, externei um dos muitos pensamentos que me atormentaram por anos que me rendeu o arregalar de vários pares de olhos. Não foi raiva. Nem rejeição imediata. Foi pior. Estranhamento. Como se, de repente, eu tivesse me tornado irreconhecível. E simples assim destruí o que construí para mim mesma e sigo odiando a mim mesma por isso. Nesse viés, a pergunta que sempre acaba invadindo meus pensamentos mais íntimos e que compartilho com você é: Será que todo mundo é capaz de experimentar o final feliz?


— Clarisse D'Orsay

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