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Todos os caminhos

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 27 de out. de 2023
  • 2 min de leitura

Atualizado: 17 de nov. de 2023

Bem no comecinho do ano, criei uma espécie de blog pra comentar arte e cultura. Gostava bastante de alimentá-lo — gosto de me expressar, principalmente sobre a área cultural — e penso ter criado uma base de leitores bacana e interessada no que eu tinha a dizer. Mas havia também uma parte de mim que se afogava em ansiedade só em pensar em gente me acessando, me lendo; lembro do frio na barriga infernal de todo dia 09 do mês. Era uma loucura, uma agonia… Mas eu seguia postando sem pensar muito. Até o grandioso 9 de Julho, quando, pela primeira vez, um artista do qual eu comentei no blog me leu. Tinha ali uma felicidade, uma sensação de talvez, apenas talvez, as coisas estarem começando a evoluir, a dar certo… Ou então completamente errado. Junto da alegria, veio o pânico. Um artista me leu falando dele: Ele realmente gostou ou mentiu pra me agradar? Será que mostrou para algum amigo? Estaria ele rindo de mim e da minha escrita equivocada sobre sua arte? Depois dele viriam mais? Foi o primeiro de muitos? Ou eu faria ser o último? Infelizmente, fiz ser; parei com meu blog. Coloquei a culpa no tempo, mas claramente não foi ele. Foi medo, foi pavor, foi pânico. Medo de que continue evoluindo a ponto de sair da minha base de leitores bacana e interessada. Pavor de que pessoas mais capacitadas me leiam. Pânico de descobrir que talvez eu seja uma fraude. Sou consciente de que não é assim que funciona, de que sou muito nova, de que escrita se aprimora, ninguém começa perfeito… Mas eu não, eu não me dou ao luxo da mediocridade; não consigo. Prefiro parar, emudecer, virar estátua, não existir do que entregar mediocridade. Ou pelo menos descobrir dela. Lembro também de uma vaga de estágio que eu queria muito me inscrever, mas por falta de tempo — sempre ela, a tal falta de tempo — não fiz. Obviamente não foi o tempo, foi de novo o trio medo, pavor e pânico. A ideia de receber um não, de ser qualificada como incapacitada para uma função, de ser rejeitada pelo que ofereço me paralisa, me coloca imóvel, estática. É como se eu não existisse, portanto, não teria como aplicar para vaga de emprego ou escrever em um blog; eu não existo e meus problemas também não. Tem uma esquete ótima da saudosa Fernanda Young na qual ela fala do “ser ou não ser, eis a questão” de Shakespeare e como ela queria simplesmente não ser nada por alguns minutos do dia, o mínimo que seja. É a mesma lógica, um pouco menos saudável e certamente um tobogã para o fracasso. É louco como, não importa o quanto lutamos contra, todos os caminhos levam a ele, o fracasso. Mas a essa altura não sei mais se luto contra ele ou se acabo o perseguindo.



- Harolda Duprat

3 comentários


Isadora Carvalho
Isadora Carvalho
26 de nov. de 2023

Infelizmente todos passamos por isso, o que torna o texto impactante

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Gabriel Capistrano
Gabriel Capistrano
30 de out. de 2023

entendo como é conviver com esse medo e pânico nos assolando nas decisões, belo

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Motoserra
Motoserra
29 de out. de 2023

Belas palavras. Me envolvi totalmente no seu jeito de contar a narrativa

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