Traumatizar
- Ýsis Devereaux
- 27 de mar.
- 2 min de leitura
Dicionário
Trauma: 1. abalo psicológico de onde se desenvolveu uma neurose. 2. dificuldade; crise: Criou-se um trauma com a proibição da entrada dos professores portugueses no Brasil.
Traumatizar:1. Causar trauma; chocar; abalar: Transmitida ao vivo pela TV, a cena da tragédia traumatizou os pais.
É deveras interessante como o “trauma” e “traumatizar” possuem significados similares, mas ao mesmo tempo tão diferentes.Como isso é possível, já que, a traumatização deveria ser causada diretamente por um trauma? Inicio então esta crônica avisando: felizmente, não sou um alguém com traumas. O que para escrever essa crônica acabou se tornando algo quase negativo. Mas sou um alguém traumatizado. Não pelo trauma, mas sim pelo choque, o abalo, o medo.
Poderia dizer que existe um “Trauma por não ter traumas” ? Talvez. Já que meu abalo psicológico giraria em torno de: então, quer dizer que não me permiti viver as experiências necessárias de vida - que a maioria das pessoas já viveram - para possuir um um trauma? Eis a questão. Existem estudos que dizem que o cérebro esconde de nós mesmos o que ele sabe que talvez nos machucará em excesso se lembrarmos. Teria o meu cérebro escondido meu trauma de mim, por ele ser grande demais para que eu o suporte? Nunca saberei. Passei intermináveis 3 dias tentando pensar em algo, mas nada me veio à mente
Me questionei. Já que não sou uma pessoa com traumas, o que será que possuo? O que tenta minha mente ao desespero? Um gatilho, assim como o trauma faria. Tudo que eu pensava, eram coisas que nem mesmo vivi. O desespero de não viver. ‘E se’ não alcançar o que desejo por não ter seguido a oportunidade quando me foi dada? ‘E se’ não conseguir vivenciar uma experiência que almejo por não me colocar nos locais que me possibilitarão vivê-la? . “E se” eu me colocar nelas em 90% e não acontecer nada, mas nas 10% que sobraram, ocorrer algo que poderia mudar tudo e eu não estar presente.
Sou traumatizada pelo medo de ‘talvez’ não viver o suficiente. Será que vivo o suficiente? Será que viverei o suficiente? Não digo isso pela quantidade tempo que terei de vida, mas sim sobre: aproveitarei o tanto que deveria? Essa questão me rodeia constantemente. Não sou uma pessoa de sair de casa ou ir à festas, para ser honesta recuso a maioria dos convites para tais, mas todas as vezes que vou, tento aproveitar como se fosse a última chance. Não de forma inconsequente, óbvio, mas tento me fazer o mais feliz possível no momento. Afinal, ninguém sabe o que tem após a morte, e quem sabe não está mais aqui para nos contar.
Sou traumatizada pelo completo e absoluto desespero que o “e se” me provoca. Pelo medo de perder uma chance que pode ser única. No fim, talvez eu realmente não tenha traumas, mas, certamente, sou traumatizada.
— Ýsis Devereaux

Gostei do jogo de ideias que trouxeram grande significado ao seu texto.
Gostei muito do texto! Essa quebra de expectativa de certa forma. Muito importante essa fala sobre o “talvez” e o “e se”, que são pensamentos que acredito perseguem a mente de todos jovens