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VOCÊ QUERIA SER VISTO

  • Submarino
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Você não tinha intenção, mas sabia que suas faltas faziam quem você era. Ninguém tinha culpa, talvez o sistema, talvez a soma silenciosa de tudo aquilo que você nunca teve coragem. Mas todos os dias você acordava com a certeza de que precisava ser melhor. Melhor para os outros. Melhor para sua família. Melhor para você mesma. Como se existir, simplesmente existir, nunca fosse suficiente.


Por que tanto desespero? Por que esse medo constante e corrosivo de não ser tudo isso? A resposta, curiosamente, não está enterrada em alguma camada obscura da sua história. Ela está na superfície, e talvez seja exatamente por isso que dói tanto: o ego. Uma força incansável que te empurra, todos os dias, em direção à borda do colapso. A busca pela perfeição, pelo reconhecimento, por ser adorado, visto, querido, amado. Por ocupar espaço de um jeito que ninguém pudesse ignorar. Contudo,  essa obsessão, que te custou tanto, também te rendeu os maiores feitos da sua, até então, vida. Foi ela que te fez atravessar portas que ninguém da sua família havia tocado antes. Foi ela que te sustentou quando a fadiga implorava para você parar. Mas foi ela, também, que te adoeceu. Que afastou as pessoas que você amava. Que roubou sua liberdade com uma elegância cruel. Que apagou, camada por camada, aquilo que havia de mais genuíno na sua personalidade. Que consumiu anos, anos que você sabe, com uma clareza que machuca, que não vão voltar.


Mas sabe o que mais pesa no seu coração? Não é o que foi perdido. É saber que, se pudesse voltar, não faria diferente. Não porque seja insensível ao que se foi, mas porque você acha que outras escolhas teriam te desviado do sonho. E esse sonho, esse fardo que carrega com tanto orgulho e tanta exaustão, nasceu antes de você entender o que ele significava. O primeiro da família a entrar numa universidade. Era esse o seu sonho? E se era seu, de verdade, por que ele ainda te causa tanta dor? Por que a conquista não trouxe o descanso que você imaginava? Talvez porque você nunca tenha aprendido a existir no meio do caminho. Sempre esperou demais pelos resultados, pelos aplausos, aqueles aplausos quase impossíveis que raramente chegam durante o processo. E você sabe disso. Você e eu sabemos que isso não vai mudar tão cedo.


Mas talvez exista algo de corajoso nisso tudo. Em preferir a dor ao fracasso que você mesmo inventou e que te persegue há anos. Em carregar um sonho que pesa, mas que é seu. Em ser, apesar de tudo, incapaz de desistir. Você não é perfeito. Nunca foi. E no fundo, por baixo de todo o ego, existe alguém que só queria realizar os sonhos daqueles que amava.


Essa pessoa também é você.

                                                                                             

Submarino

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2 comentários


Marilia De Dirceu
Marilia De Dirceu
há 3 dias

Uma escrita bem intimista que falou muito comigo, principalmente no terceiro parágrafo. Parabéns!

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Ýsis Devereaux
Ýsis Devereaux
há 3 dias

Me identifiquei fortemente com sua crônica, uma vez que, já passei pelo mesmo período de questionamentos "estou fazendo isso por gostar, ou porque alguem que eu gosto quer que eu faça?" Ou até mesmo o momento em que queremos proporcionar isso para a pessoa especial já que ela nãoteve chance. Gostei muito de como você contruiu esse sentimento e questionamento ao longo do texto

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