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À minha maneira

  • Manuella
  • 12 de set. de 2025
  • 1 min de leitura

Existe uma parte em mim que não mostro com facilidade. Ela se irrita quando o

“não” aparece e torce o nariz quando algo não sai do meu jeito. É como uma

criança batendo o pé no chão, exigindo que o mundo se dobre.

Você é filha única, né? – perguntam-me. E eu sorrio meio sem graça, porque a

resposta já carrega a acusação escondida. Está explicado, dizem. E talvez esteja

mesmo. Talvez não seja tão difícil perceber.

Essa sombra não gosta de esperar. Não gosta de perder. Não gosta de dividir.

O fato é que a sombra está ali, escondida até o instante em que algo foge do

meu controle. Ela aparece quando perco a paciência, quando me sinto

contrariada, quando quero que façam as minhas vontades. E mesmo sabendo

que não funciona assim, a garota mimada dentro de mim insiste em acreditar

que deveria.

É curioso como esse traço também revela fragilidade, porque no fundo não se

trata apenas de querer que tudo seja como eu quero, mas do desconforto que

nasce quando não tenho controle algum. É nesse intervalo entre o desejo e a

frustração que a mimada aparece.

Busco olhar para essa parte de mim com mais honestidade; não adianta fingir

que ela não existe, nem silenciá-la. Talvez o caminho esteja em aprender a

escutar o que essa criança quer dizer, sem me deixar levar pelas suas birras.

Talvez crescer seja isso: aprender a reconhecer a sombra, dar um lugar para

ela, mas não deixá-la decidir por mim.


Aurora Lispector

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