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10 ANOS NA TRINCHEIRA

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 9 de mai. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Vinícius Souza


Não lembro de uma experiência próxima da morte, nem de uma incrivelmente linda de se contar.

Acredito que meus aprendizados sejam com base nas experiências daqueles que vieram antes de mim e nas experiências dos outros. Mas, para não ser careta, lembro do primeiro dia em que briguei com meu padrasto.


Sete anos. Uma vida toda. O suficiente para, finalmente, aumentar a voz — quebrando a barreira do medo que me cercava.

Lembro da blusa branca de algodão, suja de comida por brigar e soltar pedaços de macarrão ao mesmo tempo. Lembro da sensação de que ali nascia um novo eu, que nunca mais soube levar nada para o travesseiro.


Um verdadeiro monstro criado por outro. Sem controle, me apeguei às respostas e às defesas, mesmo quando não era atacado.


Modelei um eu que, na verdade, não queria ser — mas, na minha cabeça de criança e adolescente amargo, precisava.


Da primeira briga aos 7 anos, foi só aos 17 que parei. Dez anos brigando todos os dias, ininterruptamente. Cansado, mas com munição pra atirar até no mais frágil que ousasse se opor ou tentar dizer que eu estava errado.


Essa experiência — não a da primeira briga, mas a dos dez anos na trincheira — foi o que me tornou esse adulto mais calmo.

Acho que, de alguma maneira, eu enterrei as metralhadoras, porque percebi que não valiam a pena. Sei lá, parecia que o tiro acertava mais em mim. As guerras já não tinham aquele sabor doce de vitória.


Aprendi a arte da ignorância, de não precisar gritar para falar alto, de simplesmente reduzir as opiniões divergentes a um átomo a ser analisado.


Não me entendam mal: não troquei um briguento por um esnobe, mas sim um burro por um apreciador.

Ou talvez fossem só os hormônios, e me tornei apenas mais um cara chato. Vai saber.


Como disse Bel, eu tenho um peito enorrrme — o meu, no sentido da carga que carrego.

Não vem, não. Se não... saio andando.

Não porque sou maduro — longe disso, aliás — mas porque já experimentei o doce veneno por dez anos, de muitas formas.

Acho que já me saciei. E, rapaz... não quero repetir o prato.

 
 
 

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3 comentários


Jorge M
Jorge M
13 de mai. de 2025

Uma trincheira longa e difícil, e que você, com inteligência e maturidade, conseguiu sair. Parabéns pelo texto, Vinícius, muito bem escrito.

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Izabel Dos Prazeres
Izabel Dos Prazeres
11 de mai. de 2025

A experiência de se crescer num ambiente de guerra é devastadora, bom que você encontrou seu escape, mesmo que seja temporário. As coisas vão melhorar.

Querido, já lhe disse outras vezes como gosto da sua escrita e, dessa vez, reforço isso com um gostinho ainda mais saboroso. Fico muito honrada com a menção. Sigamos peitando o mundo!


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Maru Serano
Maru Serano
10 de mai. de 2025

Adorei o seu texto. Temos que escolher as nossas batalhas mesmo.

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