Só na pele do cachorro
- Ila Nazareth
- há 2 dias
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Renata e Juliana andam pelo centro da cidade. Viram esquinas, entram em lojinhas, batem perna, rodam por aí, tomam um cafézinho e continuam a andar. As calçadas cheias de pessoas fazendo o mesmo. As ruas agitadas com motores soando e fumaça saindo dos escapamentos. O sinal abre e dezenas de pessoas seguem o fluxo atravessando as ruas com pressa.
Renata e Juliana também atravessam. E, ao fazerem isso, se deparam com um pequeno cachorro. Mas não pequeno de porte, pequeno de força, de gordura, de vitalidade. As costelas marcavam aquela camada fina que um dia foi chamada de pele. Suas patas andam sem jeito, mancando sem conseguir suportar o próprio peso direito. Por causa de fraqueza, de fome, de frio, de solidão.
Juliana não aguenta ver a cena e seus olhos se enchem de água. A angústia era quase palpável. O dia inteiro rodando pelo centro com a cena passando por sua cabeça como um filme sem fim. O dia inteiro falando para Renata o quanto aquela cena a tocou, o quanto aquilo a deixou sem chão.
Renata compartilhava do sentimento, era impossível não o fazer. Mas o que ela não compreendia era porquê esse sentimento só surgia em sua amiga quando se tratava de um cachorro. Elas passaram por ao menos dezenas de pessoas que sobreviviam à mesma tortura naquele dia. Era como se para ela, não existissem. Como se fossem invisíveis. Porque aquilo a comovia só na pele do cachorro.
— Ila Nazareth

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