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Apenas os pés

  • Fani Pimenta
  • há 2 dias
  • 1 min de leitura

Lembro-me de abrir o jornal um dia e me deparar com a notícia de um homem que morreu em uma padaria. Foi negada a ajuda que poderia salvar sua vida. Nenhuma das pessoas presentes no estabelecimento ligou para pedir socorro à emergência. Sem identificação de seu nome, o homem se despediu de sua vida ainda pelo horário da manhã daquele dia.

O que mais me chocou nesse caso foi como a história prosseguiu. Com as portas abertas e clientes entrando e saindo, comendo e se deliciando com a primeira refeição do dia, o corpo do pobre homem esfriava ao longo do tempo.

Coberto com um plástico preto, apenas com os pés à vista, ao lado da vitrine de salgados frescos, o morador de rua foi ignorado mais uma vez. Com um cercado feito de mesas e cadeiras para ninguém esbarrar no corpo, a vida segue tranquilamente na outra parte da lanchonete.

Apenas um cliente procurou o responsável da loja durante as quatro fornadas de pão recém saídas do forno, apenas esse cliente apontou a necessidade de fechar as portas em visão da questão humanitária e sanitária.  O responsável se recusou, disse “ninguém teve humanidade quando ele estava jogando na rua, agora que morreu jogado na minha padaria querem que eu tenha humanidade”.

Eu aposto que metade dos clientes nem notaram a presença do homem no chão gelado, eu provavelmente não teria notado, você que está lendo provavelmente também não. É triste pensar que na sociedade que vivemos atualmente a empatia é pouca e a solidariedade é menor ainda. O dinheiro nos consumiu e o tempo nos controla incessavelmente.


— Estefania Pimenta


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