Ser
- gabriel gonçalves
- 23 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Crônica por Maria Brunari
“Você deve saber o que deve falar e a hora de se calar.” Foi o que meu pai me disse. Não uma ou duas, mas centenas de vezes. Em todas, com uma long neck na mão e o olhar firme, como se estivesse me concedendo um ensinamento ancestral. Eu ouvi. Juro que tentei. Tentei de verdade. Mas há coisas em mim que não se ajustam, que não se dobram. Nasci com a alma expansiva.
E o mais irônico é que, enquanto me dizia isso, ele era o próprio exemplo de excessos. Falava alto, ria escancarado e bebia mais do que aguentava. Repetia histórias quantas quer que fossem as vezes com o brilho de quem acreditava nelas toda vez como se fosse a primeira. Era um homem exagerado, em tudo. E eu, pequena, o olhava com orgulho. Onde quer que ele estivesse, sua presença era notada. Queria ser como ele. Presente. Incontornável.
Mas ali, mesmo naquele tempo, já morava algo em mim que não conseguia se esconder. Um traço de desobediência que não era rebeldia, mas natureza. E, com o passar dos anos, percebi que por mais que eu tentasse, mais que me calasse, mais que quisesse seguir o roteiro… eu sempre acabava escapando dos arames que sufocavam.
Eu nunca fui feita de silêncios respeitosos ou sorrisos ensaiados. Fui feita de fala antes do filtro, de emoção que transborda sem pedir licença. As palavras saem da minha boca como se já estivessem ali há séculos, esperando a chance de respirar. Eu falo sem pensar. Sinto sem controle. Vibro. Sempre fui assim. Sempre fui sobre ser. Nunca sobre conter.
Até tento seguir a intuição, essa linha tênue entre o pressentir e o imaginar, mas o que me move são as sensações. O cheiro de terra molhada me emociona. Uma música errada num dia certo pode me fazer desmoronar. Um toque sútil pode mudar meu dia. Sou assim: tato, impulso, intensidade.
Não é falta de educação. É excesso de existência. Se sou demais? Talvez. Mas nunca fui de menos. Após anos, entendi que não nasci pra caber. E essa consciência não me torna presunçosa. Me torna inteira. Sem modéstia. Porque sei o que carrego e sei o que ofereço.
Hoje, às vezes, a gente se senta frente a frente. Ele com a cerveja dele, eu com a minha. Não mais por espelho, mas por destino. Entre uma fala e outra, surgem pausas que dizem mais do que as palavras. E nesse silêncio compartilhado, percebo: há um estranhamento entre aquilo que ele sonhou que eu fosse e aquilo que, teimosa, eu me tornei.
Ele ouve meu tom, esse tom que não se encaixa, não suaviza, não pede licença, e sorri de lado, como quem entende finalmente. Ri das minhas palavras, do meu exagero, da minha forma de existir com todas as letras. E eu sei: ele me aceita. Talvez sem compreender, mas com o coração rendido. Ele já não tenta me corrigir. Apenas me observa. Não consigo decifrar o seu olhar. E eu, feita de tudo o que arde, mentalizo com força e decisão: Eu ouvi sim, pai. Mas há pessoas que habitam o silêncio com naturalidade. Vivem por dentro, onde os pensamentos fazem morada e o mundo se desenha em profundezas calmas. E há outras que transbordam. Sentem com o corpo inteiro, falam com o olhar, brilham com o gesto. Percebem a vida em intensidade crua e dizem sem medo o que pulsa.
Eu sou do segundo tipo. Sou feita de excesso e verdade. Vivo no volume alto do sentir, em que o silêncio pesa mais do que qualquer coisa. E agora que me reconheço… não há mais volta. Não peço licença para ser. Apenas sou.

Incrível como você conseguiu falar sobre a sua relação com o seu pai em um texto tão intenso. Essa sua overdose de emoção é sempre muito atrativo. Excelente crônica!
Maria, você é uma escritora deslumbrante. O paralelo já citado por Bel, que você fez entre a construção e aceitação do seu ser e a relação com seu pai é incrível.
Fico contente que você tenha aprendido a amar seu exagero, nem todo mundo tem que caber num copo e na verdade, ainda bem que algumas pessoas — assim como você — transbordam. Sua escrita é impecável e tem uma narrativa incrível. 🕷️
Maria, amei como você conseguiu traçar um paralelo entre a construção da sua personalidade e sua relação com seu pai. Acredito que somos, de fato, moldados por nossas trocas com aqueles que nos rodeiam. Ainda bem que você aprendeu a amar seu exagero e excesso, porque isso transborda em sua escrita com muita beleza. Texto maravilhoso, como de costume! Te admiro muito!
Maria, eu simplesmente sou apaixonada pelo seu exagero, por sua intensidade e forte emoção. Admiro muito sua personalidade, continue sendo autêntica, você é única.
E como sempre, a escrita impecável, sua forma de se expressar nos prende a cada vírgula, é fascinante.
Você apenas é absurdamente talentosa, domina a narrativa, cria um espaço em que a gente se sente como na casa de um conhecido e conta uma história tátil,forte e cheia de personalidade.
Mari, você tem parentesco com cazuza e não sabe, exagerada e potente.