top of page

A dor que sempre dói

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 11 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Capitu


Hoje fui a uma sorveteria no centro da cidade, tenho o costume de ir lá desde que me conheço por gente, o sorvete não é dos mais saborosos, mas no coração existe um sabor maravilhoso na casquinha sem graça de baunilha, no cheiro do ambiente, na paisagem urbana.Existe um conforto naquele lugar, costumava passar lá depois de sair do fórum, ou depois de ir a psicóloga, ou simplesmente depois de um passeio com a minha mãe. No caminho passei por alguns homens, não tremi, não temi, eu segui andando de cabeça erguida, sem imaginar o pior.


Ao chegar encontrei uma menina, talvez tivesse uns doze anos, ela era - aparentemente - feliz, mas existia um temor em seu olhar e em sua postura. Parecia comigo naquela idade. Andava rígida, sem querer chamar atenção, com roupas soltas, quase se escondendo. Me perguntei se ela já viveu algo parecido com o que vivi, se ela já teve medo de tudo e todos, e se ela - assim como eu - conseguiu encontrar uma luz em tantas trevas.


Quando tirei meu olhar dela vi mais uma menina, essa era menor, sorria mais, mas não deixava a saia da mãe, olhava pros lados desconfiada e segurava nas mãos de sua mãe como se sua vida dependesse disso. Considerando a idade dela, isso é uma verdade. Olhar pra ela não foi a melhor das escolhas, observá-la não foi a melhor das decisões. A imaginei tendo que repetir a mesma história para diferentes profissionais, sendo questionada por detalhes sendo só uma criança, tendo que entender a gravidade das coisas tão nova, tendo que perder a doce ilusão de seu super-herói, entendendo que ele não era tão super assim. Quis abraçar a versão de mim que tinha a idade da menininha, quis poder voltar no tempo pra dizer que ficaria tudo bem.

Por muito tempo eu tinha achado que a dor, em algum momento, passaria, mas não.  

- A dor sempre vai doer. - disse pra mim mesma. Entendi naquele momento que eu sempre viveria com aquela cicatriz e que cabia a mim, como coube a vida toda, lidar com aquilo e tentar seguir em frente. Comecei a sentir lágrimas escorrendo pelo rosto. A menina de três anos sempre estaria em algum lugar dentro de mim. Cabe a mim encontrá-la e confortá-la.


 Enquanto saboreava o sorvete, que quase não tem gosto, abracei meu eu interior, abracei a pré adolescente que fui, e principalmente a criança que tive que ser. A dor sempre vai doer, mas eu vou ser mais forte que ela. Como sempre fui.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Cartas que nunca chegam

O choro denso de uma mãe ecoa ao fundo da sala. As grades são tingidas pelo vento gélido das manhãs norte-americanas. O cinza predominante reluz nos olhos das crianças – que tão cedo se tornam as mães

 
 
 
Só na pele do cachorro

Renata e Juliana andam pelo centro da cidade. Viram esquinas, entram em lojinhas, batem perna, rodam por aí, tomam um cafézinho e continuam a andar. As calçadas cheias de pessoas fazendo o mesmo. As r

 
 
 
Apenas os pés

Lembro-me de abrir o jornal um dia e me deparar com a notícia de um homem que morreu em uma padaria. Foi negada a ajuda que poderia salvar sua vida. Nenhuma das pessoas presentes no estabelecimento li

 
 
 

2 comentários


Izabel Dos Prazeres
Izabel Dos Prazeres
11 de abr. de 2025

Nossa, fui tocada, não só pela história, mas também pela sutileza da sua escrita. Diz tanto dizendo tão pouco... Que texto dolorosamente lindo!

Curtir

Peter Parker
11 de abr. de 2025

Emocionante, com uma narrativa tão bem construída, analogias tão lindas que nos faz sentir sua dor. Essa, que só você pode sentir e talvez explicar.

"A dor sempre vai doer, mas vou ser mais forte que ela. Como sempre fui."


Incrível. Parabéns. 🕷️

Curtir

©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page