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A morte de Deus

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 11 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Raven


Não chorei quando recebi a notícia de que meu avô havia sido internado, nem mesmo nas visitas posteriores no hospital, apesar de sua aparência definhar aos poucos. Estava começando a ter dúvidas em relação à religião, pois não acreditava na lógica de céu e inferno, mas ainda queria crer que existia um Deus bondoso. De forma possivelmente egoísta, infantil, mas racional, decidi colocá-lo contra a parede. Rezei todas as noites para que se ele existisse, não deixasse meu avô morrer.

​No meio da noite, alguns meses depois, recebo a ligação do meu pai avisando que meu avô havia morrido. Só me lembro de começar a chorar, e desesperadamente clicar em qualquer coisa no meu celular, tentando me distrair e me anestesiar daquela sensação, do vazio.

​No enterro, no dia seguinte, lembro de não me sentir triste. Entre comentários religiosos, e rituais cristãos, pensava sobre o fato de Deus não existir, ou no mínimo não poder interferir, sem a mesma raiva do dia anterior. Encontro com familiares, ver o corpo, nada afetava minha completa apatia. Só me recordo da esquisita sensação de uma lágrima caindo no meu braço, na verdade, demorei a reconhecer o que era aquela água morna, acho que foi a primeira vez que vi meu pai chorar. Até hoje não sei elaborar o que estava sentindo, a minha percepção era de que não sentia nada.

​Apenas um tempo depois me recordo de alguma emoção. Não sei se foi meu pai ou meu tio quem comentou que estava irritado, pois um médico contou que viu cair uma lágrima do rosto do meu avô logo antes dele morrer. Uma informação desnecessária, que por algum motivo fizeram questão de repassar. Após terem retirado pelo menos a utopia de que meu avô morreu em paz, eu me lembro de sentir ódio, mas apenas fingi que nada havia acontecido, e tentei ao máximo esquecer isso.

​Anos depois, em casa, comecei a chorar, pela primeira vez desde que meu avô tinha morrido. Entrei no banheiro, o único lugar que conseguia trancar a porta, e só me lembro do chão frio, a luz branca, e eu chorando por alguns minutos. Não me sentia triste, pelo contrário, me sentia em paz, sem mais o vazio que carregava comigo desde aquele dia.

 
 
 

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3 comentários


Inês Brasil
Inês Brasil
01 de mai. de 2025

Raven, passamos por coisas realmente muito parecidas. Entendo completamente cada etapa da sua dor, desde o choque à apatia no dia do velório. Um dia, quando nos revelarmos, se precisar de um desabafo e alguém para te ouvir, estarei disponível. É realmente assustador quando um pai chora, causa um desamparo em nós que nos marca para sempre. Seja luz. " E 'podermo' não ficar no erro ou então 'aprendermo' muitas coisas um com o outro, existe os espelho da vida"

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nástienka
nástienka
12 de abr. de 2025

Ótimo texto, muito sensível. O luto realmente transcende o sentimento, ele é também um processo contínuo, irregular, e você conseguiu expressar isso com muita delicadeza.

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Peter Parker
11 de abr. de 2025

O luto tem de a ser uma dor que não se esvai. E falar sobre é como um abraço na vida e apostar que um dia as coisas vão melhorar — e vão. Crônica inesquecível, sentimentalismo e detalhes que enriquecem o nosso coração ao mesmo tempo que nos esfaqueia aos poucos, a morte talvez seja a maior das dores. 🕷️

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