A morte de Ícaro
- Clarisse D'Orsay
- há 2 dias
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Sempre me disseram que conhecimento era poder, uma arma que ninguém nunca poderia tomar de mim. Frasezinha muito tosca, aliás, mas de alguma forma estava gravada nas camadas mais profundas do meu cérebro. Nunca houve nada que eu não pudesse aprender, não havia habilidade a qual eu não pudesse desenvolver com 90% de técnica e 10% de bom senso, não havia labirintos dos quais eu não poderia fugir.
Nunca me senti um ser humano genial ou excepcional de alguma forma, porque tudo isso me era muito intuitivo. Eu via o mundo como um quebra-cabeça enorme e que com o tempo, passou a ser divertido montá-lo. Tudo era tão simples como 1+1 é igual a dois ou força é igual a aceleração vezes massa. Isso se aplicava até ao mais simples diálogo no cotidiano. Minha intuição, sexto sentido, ou seja lá como chamem, nunca falhou comigo. Sempre sabia o que dizer, quando dizer e como dizer. Ainda assim, nunca fui o tipo de pessoa mais fácil, ou agradável de se lidar. Sendo sincera, nunca quis ser esse tipo de pessoa, o mundo está repleto delas.
Até que meu ego voou longe demais, até pra mim. O sol estava insuportavelmente quente. O mar assustadoramente agitado. Não havia artimanhas, máquinas ou soluções lógicas que eu pudesse recorrer. Havia somente o desesperado bater de duas asas de cera que rapidamente se derretiam. Quem acreditaria que a fuga alada podia ser a mais terrível das ciladas?
Ali estava, meu último resquício de felicidade se afogando bem na minha frente e eu não pude fazer nada. Meu Ícaro se afogou ao mar. E os deuses riam enquanto eu implorava pra que eles o salvassem. Não adiantava. Ali morreu aquilo que me mantinha sã. Ali, morreu tudo que eu considerava lógico e racional. Morreu lutando, pelo menos. Morreu várias vezes, de novo e de novo. Como um maldito disco arranhado que não queria ser arrancado do vinil. Não havia feitos passados que me importassem mais. Não que esses fossem atos heroicos ou altruístas, porque nunca fui esse tipo de Dédalo. Ali eu empunhei o conhecimento contra mim mesmo, pena que “O suicídio de Dédalo” nunca foi um bom nome a uma tragédia grega.
— Clarisse D'Orsay

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