A (Não) Escolha
- Isabela Pelluso
- 11 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Crônica por: Maria Brunari
Tentei te ligar. Sem êxito.
E, pela primeira vez, me dei conta de que não posso mais te esperar.
Descansar virou urgência.
Te priorizar era um hábito — agora é uma escolha que não me cabe mais.
Quando meus sentimentos começaram a surgir, eu idealizei. É, idealizei mesmo. Acreditei em tudo que o coração romântico é capaz de inventar: em cuidado, em carinho, em parceria, em lealdade. Acreditei que, por ter sofrido tanto, você seria diferente. Que, justamente por ter sido ferido, faria pelo outro o que não fizeram por você.
Mas, aos poucos, tudo foi se desfazendo.
Ela apareceu como um fantasma do seu passado — e, ainda assim, você a manteve viva entre nós. Talvez sem má intenção, talvez sem perceber. Mas o efeito foi devastador.
A cada gesto ambíguo, a cada silêncio cheio de omissões, fui sentindo meu espaço sendo tomado por uma presença que, pra mim, sempre foi sinônimo de dor.
Não foi um acontecimento isolado.
Foi o acúmulo: as conversas que sumiam, os convites que nunca vieram, os dias em que a sua atenção estava em qualquer lugar, menos aqui.
Eu queria sinais de presença — recebi apenas indícios de distância.
E teve algo que doeu mais do que a própria partida: o ciclo.
O vai e volta, o quase, o sempre por um triz.
Toda vez que eu criava coragem pra ir embora, pra juntar o que restava de mim e seguir, você voltava.
Com uma palavra doce, uma lembrança bonita, um gesto calculadamente brando.
Você sabia como me encontrar no exato momento em que eu começava a me reencontrar.
E eu, com esse coração teimoso, achava que era um sinal.
Achava que era amor.
Mas bastava eu me entregar de novo pra tudo se inverter.
O carinho virava frieza.
A promessa virava silêncio.
O abraço imaginado virava porta fechada.
E eu, de novo, era a que sentia demais.
A inconveniente. A exagerada.
A que voltou quando devia ter seguido.
Era como ser puxada pela mão e, quando enfim levantava do chão, ser empurrada de volta.
Amar você era isso: um eterno quase.
Um convite pra voltar e uma punição por ter aceitado.
Hoje, não julgo sua decisão de partir.
Julgo apenas a minha de ter insistido tanto.
Foram meus terapeutas — sim, os dois — que, depois de muito silêncio meu, fizeram a pergunta que ninguém nunca havia feito:
“Se ele voltasse hoje, por que você diria sim?”
E eu não soube responder.
Porque, apesar de você ter sido bom em alguns momentos, foram só alguns. E amor que se sustenta só no “às vezes” pesa demais.
Depois, quase como num roteiro ensaiado, eles me lançaram outra pergunta — ambos, em sessões diferentes, sem saber um do outro:
“Que tipo de amor você acredita que merece?”
Um amor que não desiste no primeiro tropeço?
Que olha pra mim, mesmo nos dias mais difíceis, e diz:
“Tá pesado, mas eu fico. Porque amar também é escolha.”
Não esse que, diante da primeira exaustão, se recusa a continuar.
Quando tentei explicar o quanto tudo isso doía, você traduziu em algo simples demais.
Como se a minha dor fosse exagerada.
Como se eu estivesse fazendo drama por algo que, pra você, era só o fim de uma fase — e, pra mim, o colapso de um mundo.
Talvez eu ainda tenha muito a dizer.
Mas, por ora, é isso.
Não posso te ver.
Não posso te ouvir.
E, mais importante: não posso mais me abandonar pra ficar com você.
Às vezes, o maior abandono não vem de quem parte, mas de quem nunca escolhe ficar de verdade.

Um eterno quase, sua escrita envolve demais, mais do que um leitor me senti como um personagem na crônica, admirável!
Além de sua capacidade de se expressar, a sua habilidade de inversão dos sentidos ao longo do texto me impressionou. Parabéns pela obra, e espero que continue se escolhendo
O amor recíproco é algo a ser valorizado. A sua escrita é belíssima.
Mesmo que grande, a leitura não cansou. O amor é uma escolha que fazemos todo dia e infelizmente, parece que só você escolhia. 🕷️