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A Realidade É Pequena

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 11 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura

Crônica por: Jelly Bean


A princípio, não sentia o pânico que como costume se sente ao estar diante de

uma situação tão complicada e embaraçosa. Me via diante de algo que poderia

mudar minha vida para sempre e, ainda assim, estava sereno como se fosse uma

segunda-feira qualquer de um mês qualquer. Acredito que este sentimento de apatia

possa ter vindo da minha ignorância em relação a proporção das mudanças que

estavam prestes a acontecer.

Naquela noite, pensei que fosse me deitar tão leve quanto na noite anterior. Não

poderia estar mais errado. Os resultados de minha própria ação estavam diante de

mim. A realidade me encarava de forma visceral. Naquela noite de segunda-feira, o

mundo que duas pessoas conheciam mudou para sempre.

Fiz o que acredito que qualquer um faria, pedi ajuda. Não saberia prosseguir

sozinho pois já não confiava em minhas próprias decisões. Inicialmente, pensei ser

forte e tomei a decisão que julgava ser correta para aquele momento, mas logo senti

o medo e recorri a pessoas que se importam o bastante comigo para pensarem no

que seria melhor para mim.

Nenhuma decisão é fácil, ás vezes, não nos damos conta de que estamos

tomando alguma decisão e isso as fazem parecer mais fáceis. No entanto, se

ousarmos girar apenas um pouco o tabuleiro deste jogo de xadrez que é a vida, nos

depararemos com uma decisão que pode levar à vitória ou a derrota. Na situação

em que eu me encontrava, não importava o quanto mudasse a posição do tabuleiro,

teria apenas derrota. Precisava escolher apenas entre uma derrota curta, com

consequências menores, ou uma derrota que teria de carregar para o resto da vida.

Nas manhãs seguintes, precisava descobrir urgentemente uma forma de lidar

com meus problemas, precisava descobrir como me sentir como eu mesmo.

Parecia que não importava a direção que seguisse, meus pensamentos voltavam

sempre ao fato de que teria que fazer uma escolha. Não. Já tinha feito uma escolha

e precisaria aguentar as marcas que isso deixaria em mim. Não senti o peso por

um tempo pois estava confortável. Já havia me acostumado com aquela realidade

mesmo sabendo que teria uma data de começo e fim.

Sexta-feira estava em casa. Era diferente de todas as outras vezes, pois agora

precisava lidar com algo que as pessoas que eu amava não sabiam que estava

passando, pensei em contar mas isso apenas faria com que se preocupassem.

Sexta-feira. Sexta-feira eu precisei encarar aparelhos invasivos e uma tela preta.

Sexta-feira eu me deparei com a realidade da minha escolha. Eu precisei olhar e

ouvir a realidade. A realidade era linda, ou lindo. A realidade era pequena. A

realidade era minha e fazia parte de mim. A realidade ainda estava comigo mas em

breve iria partir por uma escolha minha.

112. 112 batidas na porta da minha consciência.

De volta em casa na semana seguinte, não parava de pensar em como essa

nova realidade estava prestes a mudar a vida que eu conhecia. Não percebi que, naverdade, já havia mudado. Não só a vida, mas a pessoa que eu pensei que fosse.

Agora havia uma nova versão de mim que ainda não sabia como encontrar.

Quando comecei, a princípio, pensei que nada havia acontecido e que as coisas

continuavam iguais. Um segredo que guardo para mim mesmo é que me senti

aliviado. Mas então, ao dar continuidade percebi que as coisas estavam

funcionando da forma como deveriam e que a partir dali não havia caminho de volta.

Comprei passagem apenas de ida. Era isso que eu queria, certo? Um dia

encontrarei a resposta.

Então, quando tudo havia terminado, eu vi a realidade. Tão pequena. Tão frágil.

Não aguentei encará-la por muito tempo e os céus sabem o quanto sinto por isso.

Na manhã seguinte me restou apenas a dor e o vazio. Sim, vazio. Antes a

realidade que me preenchia e acompanhava já não mais estava comigo e isto

causou danos que jamais poderei desfazer.

Hoje sonho com o que a realidade poderia ter sido. Quase foi.

Um sonho no tempo errado pode se tornar um pesadelo. Era um sonho até se

tornar realidade. Era meu até não fazer parte de mim. Foi eterno pelo tempo que

teve que durar e espero um dia poder encarar a realidade novamente, mas dessa

vez no tempo certo e nos meus braços.

 
 
 

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3 comentários


Tuca
Tuca
11 de abr. de 2025

Texto maravilhoso. Fiquei imersa a narrativa e refleti bastante em quanto as nossas escolhas, que na maioria das vezes não sabemos se serão grandiosas, podem alterar a nossa vida. Espero que você encontre um lugar que seja confortável na realidade, torço para que consiga te lá de volta em seus braços e no momento certo

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kenai
kenai
11 de abr. de 2025

Meu Deus que texto incrível

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Peter Parker
11 de abr. de 2025

Soa como um grito encurralado da alma para o exterior. Incrível. 🕷️

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