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A voz que não me lembro mais

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 11 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Odysseus


O luto não avisa quando vai chegar. Ele entra pela porta da frente, tira os sapatos com calma e se senta no sofá da sala, como se sempre tivesse feito parte da casa. Às vezes vem silencioso, outras vezes grita dentro do peito como uma tempestade que não avisa a hora de cair. E a gente, sem preparo, aprende a conviver com ele como se fosse uma visita que nunca soube quando partir.  



 Quando a dor começou, eu já não sabia mais para onde correr, pois no final de toda estrada estava a memória de você, do seu riso, do seu olhar, do seu abraço, da sua existência. Não apenas existe no sangue que corre nas minhas veias, no reflexo que vejo no espelho, no meu cabelo, nos meus olhos, tudo é um fragmento de você, da mãe da minha mãe, minha querida avó. Faz pouco mais de um ano de sua partida, para ser mais exato, um ano e três dias no momento em que escrevo.



 E dói, como dói, agora já não mais lembro da sua voz, do seu toque, da sua risada, tudo se esvai como a vida se esvaiu de seu corpo gradualmente. Eventualmente, vou esquecer definitivamente da sua voz até algo ou alguém simplesmente me lembrar dela de novo, e assim será até que eu me esvaia também, na finitude da vida.



 O luto não avisa quando vai partir. Ele levanta para ir à cozinha, pega um copo d'água e, após beber, volta revigorada. Às vezes, ela nem sai de perto, fica todo dia ali, na espreita de um mínimo deslize, para te lembrar do quanto seu peito dói, de quanto seu coração se aperta e seus olhos transbordam, e tudo que te resta no final é a saudade.

 
 
 

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4 comentários


Tuca
Tuca
11 de abr. de 2025

Texto lindo, amei a forma como você caraterizou cada detalhe desse sentimento. Sinto muito pela sua perda

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Jorge M
Jorge M
11 de abr. de 2025

Sinto muito pela sua perda, Odysseus, e te parabenizo pela sua ampla capacidade de escrita. A personificação do luto pela sua perspectiva foi interessante e única.

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Peter Parker
11 de abr. de 2025

Crônica de uma delicadeza extraordinária. Para aqueles que já perderam alguém, se tornará impossível visitar aqui sem derramar suas lágrimas. 🕷️

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Vinícius Souza
11 de abr. de 2025

Caiu-se uma lágrima, lindo texto.

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