Amputar a vergonha, expor cicatrizes
- gabriel gonçalves
- 9 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por: Bel-Prazer (ou Izabel dos Prazeres)
Quando ele me passou as instruções para chegar até seu endereço, achei que era uma piada de mau gosto. Acreditei que, em algum momento, meus antigos irmãos de fé apareceriam no quarto dele, de braços cruzados, com cara de reprovação e enchendo a boca para me chamar de puta. “Você mora numa igreja?”, perguntei. Na verdade, a casa dele ficava em cima de uma. “Vou te levar pro céu hoje, bebê!”, ele respondeu em tom de humor.
Tudo naquela situação era irônico. Eu, que passara meses sedenta, buscando alguém para entregar minha virgindade, conheci ele num ônibus, no dia mais ordinário possível. Eu, que tantos encontros sublimes havia tido com Deus, agora estava em cima de Sua casa, profanando meu próprio templo. A primeira vez é superestimada. Ou eu dei azar. Lamento por aqueles que esperavam uma descrição detalhada e excitante do que aconteceu lá, mas não sou pessoa de expor meus amantes. Limito-me a dizer que cumprimos nosso papel, demos um ao outro o que desejávamos. Essa história não é sobre a consumação, é sobre o milagre que é ressurgir.
Não sou fã de metáforas, mas em Nadando no Escuro, Tomasz Jedrowski descreve a vergonha como um novo órgão que cresce, monstruoso e pulsante. Um órgão que, conforme amadurecemos, subitamente, torna-se parte de nós. Aquela tarde de sexo intenso me gerou essa mutação genética, essa sina de todo ser nascido do pecado. Eu ardia. Não em chamas de tesão, como se espera de alguém que acabou de desabrochar. Eu ardia literal e fisicamente. A dor e o incômodo arrastaram-se por dias — já não sabia mais dizer se aquilo era o efeito colateral de uma primeira vez.
Um médico cravou meu diagnóstico com frieza: eu estava contaminada.
Mas como? Com o quê? Eu tinha me protegido — a camisinha usada tinha confirmado. Não era suficiente? Aquela praga crescendo dentro de mim só podia ser uma punição divina. Deus devia estar me castigando por tamanho abuso, por ousar gemer perto demais de onde se cantam louvores, por fazer ouvirem palavrões onde se ouvem aleluias.
Depois de alguns dias, meus exames chegaram. Eu não tinha porra de doença nenhuma. Até hoje não sei direito o que aconteceu. Imagino que aquele médico maldito provavelmente viu a vergonha crescendo aqui e me estigmatizou — como fazem todos os homens de bem. Foram semanas de sofrimento desperdiçado, de medo de mim, medo do sexo, medo do desejo, medo de Deus. Já era tarde. O que me restava agora era aceitar a culpa e arrastar mundo afora esse meu novo membro descomunal.
Ou não.
Na verdade, refleti: se Deus não havia me punido de fato, quem eu deveria temer? Quem, além do Todo-Poderoso, tinha poder sobre mim? Como uma criança que testa os limites e não tem a repreensão severa de um pai, decidi tentar outra vez.
E outra.
E outra.
E mais uma…
Foi assim que descobri essa minha ânsia subversiva, a minha vocação para o prazer.O que mais eu deveria fazer se o Deus-meu tinha virado as costas e fingia não me ver? Era a hora da remoção. Amputar a vergonha deixa cicatrizes compridas, mas eu exponho as minhas e deixo que toquem, para que assim, creiam e vivam.

Essa crônica é surreal. Talvez a melhor. Parece que estou lendo um livro, me dá vontade de ler a próxima página. Você é de uma sensibilidade fenomenal, e suas as tiradas tornam o texto ainda melhor.
Top melhores crônicas de todas da dinâmica 🫂
ISSO FOI MUITO FLEABAG DA SUA PARTE!!! Sou sua fã, que escrita maravilhosa e chocante!!! Você é fenomenal, faltam palavras!