Anne de Green Gables, com E de execrável
- gabriel gonçalves
- 2 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Crônica por: cafeína em palavras
Epígrafe:
Anne de Green Gables, com E de execrável
“Mas, por favor, apesar da despedida, não desapareça. Ainda te vejo em jaquetas de couro e frutas frescas, e isso tem bastado.” – Crônica: Bloco do eu sozinho, escrito por Nástienka
“Quando a dor começou, eu já não sabia mais para onde correr, pois no final de toda estrada estava a memória de você, do seu riso, do seu olhar, do seu abraço, da sua existência.” – Crônica: A voz que não me lembro mais, escrito por Odysseus
“Por que a Roda do Tempo tece encontro de almas, se irá rasgar o que foi tecido? Afinal, não quis evocar a morte, apenas a eternidade finita de uma vida separados.” - Crônica: Cafeína em palavras, escrito por cafeína em palavras.
Anne de Green Gables, com E de execrável
Olho para trás e consigo ver apenas uma grande névoa que brinca com sombras. O tempo se esvaiu como areia nas minhas mãos, não consigo esticar o que agora chamo de passado, mas que um dia foi presente e, em outra década, foi futuro.
Minha vida segue como uma avalanche, me obrigando a viver uma despedida atrás de outra, algumas mortalmente definitivas. Em um momento ou outro, de uma forma ou outra, tenho que dar adeus para quem amo. Todos se vão e eu fico aqui, sozinha, olhando para o céu e para o Sol, que nasce com sua reluzente insensibilidade.
Sob o jugo da luz reveladora que ilumina meu entorno, sem nenhuma sombra, meu coração almeja, com cada batida que me permite sofrer, as memórias. Janelas para as risadas tão frequentes que se tornaram dignas de esquecimento. Aberturas para descansos ao Sol, na época amigável, em um lugar privadamente público. Fendas para o cansaço vencido pela cafeína em palavras. Brechas para os abraços de reencontro que pareciam estar disponíveis eternamente.
Quero, desesperadamente, assistir à minha vida em um teatro com cortinas rubis. “Amor, a chama ardente”, a história de mais um alguém que amou e se tornou um pedaço queimado de carne. Vocês, que formaram quem sou e quem quero ser, me deixam pensando depois de voarem para o oeste: valeu a pena os amar? Me devolvam os pedaços roubados da minha alma, eles eram meus primeiro. Nada é devolvido, então me agarro aos injustos flashes que me permitem ter.
Flashes da promessa de me ver brilhar. Flashes de quando os holofotes estavam sobre mim, e eu estava sozinho. Flashes de um abraço e uma promessa de futuro incerto, mesmo quando tínhamos um sólido presente juntos.
Não sei como vencer a Grande Guerra da Vida, sou uma soldada vestida apenas com a própria pele. Posso, então, chorar até meus olhos explodirem para fora das órbitas? Eles não seriam, assim, torturados com esse mundo, aparentemente, vazio. Posso, então, esmagar meu crânio contra uma rocha e pedir para contarem o que sair de dentro dele?
Nesse planeta efêmero, com vidas efêmeras e vivências ainda mais efêmeras tudo pode se perder no girar da Roda, porém o que é mais intocável, imortal e eterno do que a Saudade?

Mais um muito bom texto em um oceano que transborda e, a turma parece navegar somente utilizando de boas escritas.
Fiquei um pouco confuso em relação ao seu desejo. Me parece uma leitura daquelas que lemos e nos perguntamos sobre, com mais perguntas que respostas, assim como a vida é.
O sentimento de faltar algo é repetitivo para todos nós e não falha, vivemos em um limbo. Como dito por Schopenhauer: "A vida é uma constante oscilação entre a ânsia de ter e o tédio de possuir."
Fico honrado em ter meu texto mencionado em um texto tão complexo, cafeína! Fiquei meio confuso quanto ao seu desejo, acredito que tenha sido a intensão e entendo o sentimento de sentir eternamente falta de algo, ou alguém, que não podemos ver, ouvir ou até mesmo lembrar, mas sempre iremos sentir, seja na brisa do vento ou no sabor da comida.