Boa noite, Pai
- Isabela Pelluso
- 11 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Crônica por: Bryan C.
-”Boa noite, meu filho, eu te amo.” Disse ele com sua voz imponente e palavras carinhosas que eu já nem sei mais significam verdadeiramente algo. -”Boa noite pai, também te amo” Digo eu, cansado, e exatamente como ele, sem saber se essas palavras realmente significam algo.
A figura de um pai pra mim sempre foi algo heróico. Um homem no qual você deve se espelhar e ver ali o seu ídolo, o seu herói, seu amigo, o que você pode sempre contar. Porque você não é assim? Deus sabe como eu me esforcei para tentar moldar sua figura a de um pai que eu pudesse realmente amar. Quase dois anos abandonado por você, sem motivo, me fizeram aprender a viver sem a sua presença. Hoje, eu me esforço para ter momentos que você parece querer ter, mas porque nunca pareceu isso antes? O que eu te fiz? Talvez tenha sido cômodo me deixar de lado.
Eu sempre achei que o problema fosse eu. Eu era muito chato, muito emotivo, muito fraco. E eu queria ser forte, pra você me amar. Mas isso nunca realmente aconteceu, nunca me senti amado de fato. Suas palavras eram vazias e suas atitudes impulsivas. Eu realmente fiquei forte, mas, não mais, pela sua aprovação e sim, para eu me proteger. Aquilo tudo me fazia muito mal, então, tal qual um rio que um dia fora cheio d’água, que abrigasse vida, auxiliasse na flora e fosse recanto de paz a diversos seres, eu sequei. Esse rio hoje não mais existe, e talvez ele esteja voltando, ou talvez não.
Sua imagem hoje, não importa o que você faça, ou o que eu faça, nunca vai se tornar aquilo que eu pensei. E talvez o problema realmente seja eu. Eu te idealizei, mas não por mal, juro. Eu só queria um pai. Você é um, em certos momentos, mas tuas atitudes, teu jeito de conduzir sua vida, não são de um pai, ou de se quer um homem verdadeiramente digno. Me inspiro em você pelo seu carinho, seu cuidado, você realmente se importa. As vezes. Eu acho? Enfim, é tudo ainda muito confuso. Te conheci demais, e isso me impossibilitou de ama-lo como eu sinto que devo, e não tem mais volta. Sua imagem já está feita, você é um homem carinhoso e cuidadoso, mas que foge da culpa criando realidades completamente paralelas, impulsivo, sincero a um extremo que não faz bem.
Eu queria muito te amar em uma intensidade maior, mas hoje, sou incapaz. E me culpo por isso. Minha mãe sempre foi realista e me disse de fato quem você era, mas sempre disse pra eu te amar. No final do dia, ela mais uma vez me salvou. Se ela não tivesse me incentivado a te amar, mesmo com todos esses teus defeitos, que vão contra os meus princípios de o que um ser humano digno deve fazer, hoje, eu te odiaria. E com isso, não teria mais tanto contato com minha irmã, que eu amo. Talvez ainda se mantivesse o mesmo com meu tio e meu irmão, que estiveram ao meu lado quando você não esteve. Tudo ainda é muito confuso, não entendo porque fez aquilo com uma criança de 8 anos que te amava como um herói. Dói demais lembrar do passado e de como hoje você não passa de um grande amigo.
Termino essa crônica citando uma passagem que descreve bem como me sinto acerca de meu amor por você, pai. “Eu teria sido feliz por tê-lo como amigo, chefe, tio, avô, até mesmo (embora mais hesitante) como sogro. Mas justo como pai, você era forte demais pra mim.” (Franz Kafka - Carta ao pai, 1919.)
Espero que o futuro nos guarde uma boa relação, e que eu consiga conviver com esse sentimento de que, falhei como filho, em amar meu pai.

Que reflexão tocante, Bryan! Você passou por um processo muito difícil de lidar com os sentimentos de desilusão e abandono, mas é bom ver como você trabalh para entender essa complexa relação com seu pai. Brilhe muito, torço por você e seu bem estar! "Todo mundo é gente, mas temos o coração limpo então 'samos' tudo igual"
Bryan teu texto foi profundo, me tocou em pontos que não gostaria que fossem mexidos, o que significa que você escreveu bem teu sentimento, mas ficou um pouco confuso às vezes sobre o teu sentimento em relação ao teu pai, mas belo texto
Bryan, a princípio achei seu texto dúbio, em certos pontos não dava para saber se amava ou odiava seu pai, se o queria perto ou não. A princípio pensei nisso como um equívoco, mas olhando de novo, creio que acaba sendo um recurso poderoso para nos fazer mergulhar no seu sentimento. Porque a ausência paterna é isso, não é? Esse "não lugar", essa dualidade entre a vilania e a inocência, essa terceira margem do rio. Parabéns pelo texto imersivo!
Acho que nós temos uma convenção social estranha de que devemos nascer e continuar amando nossos pais, independente de qualquer coisa. O amor não é pré-requisito; ele é cultivado, conquistado e sustentado. E amar ou não amar alguém não deveria doer tanto assim. Obrigada por suas palavras.
Uma escrita profunda e bela, parabéns!